domingo, 23 de junho de 2013

Subsídios: Vítor …

Quando o governo decide que uma parte dos subsídios de férias (a que teria sido retirada caso o Tribunal Constitucional não tivesse impedido) só será paga em novembro, quando as férias acabaram há muito, só podemos concluir uma coisa: que o Estado está com problemas de tesouraria e não tem condições de pagar agora o que é devido aos funcionários públicos. Acontece que o primeiro-ministro já deixou claro que não é disso que se trata. Há dinheiro para pagar.
Não tendo qualquer efeito no único défice que conta – o do fim do ano -, resta a possibilidade de explicar este abuso, que o Presidente aceitou, como sempre, acelerando mesmo a promulgação da lei que o permite, com mais uma birra de Vítor Gaspar contra a decisão do Tribunal Constitucional. Ou então, com uma habilidade contabilística para martelar as contas trimestrais e assim passar a ideia de que as coisas estão melhores do que realmente estão. O que me parece absurdo demais para ser verdade. Até Vítor Gaspar há de saber que existe um país fora do seu computador portátil.
Seja uma ou outra a razão, esta decisão é um ato de prepotência e irresponsabilidade. As famílias e os contribuintes fazem, como as empresas e o Estado, planeamento financeiro. Têm despesas para pagar. Têm dívidas a saldar. Agora, mais do que nunca. E, com toda a legitimidade, contavam, desde que o TC decidiu chumbar o corte dos subsídios, com este dinheiro para cumprir os seus deveres. Esta cativação do seu salário – porque é disso que realmente se trata – complica ainda mais a situação de quem já perdeu, nos dois últimos anos, uma parte significativa dos seus rendimentos. É que para muitos o subsídio de férias é um momento de acertar contas. E, sem ganho nenhum para os cofres públicos, isso é posto em causa.
Mas ela tem também um efeito na economia. Para o hotelaria e restauração o mês de junho é, com o natal, o melhor momento de negócio. Em muitos casos, um momento que só pode acontecer no verão. E isso tem como resultado a habitual queda de desemprego – graças ao emprego sazonal – durante uns meses. Os subsídios de férias significavam, em junho, a entrada de muito dinheiro na economia. Dinheiro que se reproduz. Com a crise aguda em que vivemos, significava evitar a falência de muitas pequenas empresas e a perda de emprego de muitos trabalhadores.
Ao adiar o pagamento deste subsídio o governo piora ainda mais a situação económica de pequenos negócios – como se não tivesse bastado o aumento do IVA -, que não aguentam mais prejuízos até novembro. Acaba por levar a que alguns dos poucos que ainda podem fazer férias desistam de o fazer, com efeitos no turismo. Para mostrar ao Tribunal Constitucional que não engolem a sua decisão? Para punir os funcionários públicos? Para pequenos jogos contabilísticos a pensar na 8ª avaliação da troika sem qualquer relação com a realidade? Haverá limites para a irresponsabilidade e infantilidade de Vítor Gaspar? E haverá limites para o apoio diligente que o Presidente vai dando a todas as asneiras que faz?
A greve dos professores foi por razões laborais. E é justo que assim seja. As suas e de todos os funcionários públicos, tratados como malandros por este governo. Só corresponde à defesa das funções sociais do Estado, onde a educação está incluída, na medida em que essas funções não se cumprem sem profissionais para as levar a cabo. E na medida em que os ataques preferenciais aos funcionários públicos correspondem ao preconceito ideológico que este governo tem contra as funções que eles desempenham.
Defender os professores deste ataque não significa achar que a maioria dos professores tem, em geral, em todos os restantes assuntos, razão. Os professores são tão egoístas e solidários como qualquer outra classe. Muitos se queixarão dos funcionários da CP quando estes fazem greve. Dizendo, provavelmente, que as suas greves não deviam prejudicar os outros. Assim como muitos trabalhadores da CP que fazem por vezes greves estarão indignados com os professores pelos prejuízos que causaram aos seus filhos. A velha solidariedade de classe já teve melhores dias. E isso ajuda a explicar porque perdem os trabalhadores, de dia para dia, os seus direitos.
Não faço, por isso, textos laudatórios à classe docente. Nem, como tenho lido em tanto lado, generalizações insultuosas. Limito-me a analisar as razões desta luta e a dar-lhes razão. E, sendo consequente, a defender o direito de fazerem a greve mais eficaz possível. Mesmo que ela me prejudique.
É o mesmo raciocínio que tenho com Mário Nogueira. Escrevi, recentemente no “Expresso”, sobre o olhar que do líder da Fenprof tem em relação à escola pública e como, na minha opinião, ele é, no fundamental, muito semelhante ao de Nuno Crato. Mas também nesta matéria, não me baralho. A minha opinião sobre Nogueira, e sobre a sua razoável incapacidade em manter um discurso político mais abrangente que mobilize o resto da sociedade em defesa dos professores, não muda um milímetro a minha posição sobre a greve. Pelo contrário, compreendo bem o objetivo das dezenas de ataques, mais simulados ou mais enfurecidos, que têm sido dirigidos a Nogueira. Não podendo atacar os 90% de professores que fizeram greve, concentram-se as baterias no rosto mais visível de uma contestação que contou com o apoio de todos os sindicatos. O que se pretende atacar não é a apenas esta greve e os professores. É o sindicalismo, a própria instituição da greve e, de uma forma mais geral, qualquer forma de resistência eficaz às medidas deste governo.
Uma das principais criticas que tenho lido em relação a Mário Nogueira é o facto de não dar aulas. O populismo pega com facilidade. Pega com políticos e também pega com sindicalistas. Curiosamente, ninguém faz este género de objeções a dirigentes de associações patronais, a bastonários de ordens profissionais ou a dezenas de dirigentes de ONG. Uma federação das dimensões da Fernprof (uma das maiores estruturas sindicais do País, com associados espalhados por todo o território e com um grau de complexidade na sua gestão muito razoável) não se dirige nas horas vagas.
Esta acusação feita com recorrência aos dirigentes sindicais, que nunca aparece em relação a nenhuma outra atividade associativa, só pode resultar de uma de duas coisas: ou de um completo desconhecimento do conjunto de atividades desenvolvidas pelos sindicatos ou da tentativa de criar tais constrangimentos à atividade sindical que, na prática, ela seja inviável. Na maior parte do que tenho lido, a propósito da Fenprof (e só, não sei porquê, em relação à Fenprof), é o segundo caso.
O melhor exemplo foi dado pelo líder da JSD (o mesmo que defende o fim da da saúde e da educação tendencialmente gratuitas e que afirmou não se incomodar com a quantidade de jovens que estão a emigrar), que exigiu ontem uma conveniente investigação ao financiamento dos sindicatos da educação (que, ao contrário da sua “jota”, vivem apenas das quotas dos seus associados). Quem se mete com o governo leva, é a tradução jorgecoelhista desta proposta vinda de quem vive mal com a liberdade sindical e o direito à greve. Quem faz este tipo ataque é a favor do direito à greve se ele não for exercido, a favor do sindicalismo livre se ele não for viável e a favor da concertação social se ela resultar em acordos em que só um dos lados tem uma palavra a dizer.
Se a crítica fosse à falta de democracia interna em muitos sindicatos, que têm estatutos bloqueados e a expressão da oposição muito dificultada, eu subscreveria. Avisando, no entanto, que os sindicatos dos professores até são daqueles onde essa critica é menos válida e que a eleição de Mário Nogueira como líder da Fenprof foi indiscutivelmente democrática. Se fosse ao afastamento de muitos sindicalistas, por demasiado tempo, em relação aos seus locais de trabalho, eu assinaria por baixo. Se fosse sobre a excessiva partidarização de muitos sindicatos, também. Mas a critica parte de um pressuposto demagógico: o de que é possível dirigir grandes sindicatos em horário pós-laboral. Ou seja, ter estruturas amadoras a negociar com instituições públicas e associações patronais ultraprofissionais. Quem defende isto quer sindicatos fracos. E não acredita que eles desempenham um papel central na democracia e que, para o desempenhar, precisem de recursos materiais e humanos.
A outra critica tem a ver com o recurso à greve. Ela vai variando, conforme o contexto. A greve geral é inaceitável porque quer fazer cair um governo eleito. A greve dos estivadores era inaceitável porque prejudicava a economia. As greves da função pública são inaceitáveis porque prejudicam os utentes e resultam de privilégios. A greve dos transportes é inaceitável porque impede os outros de trabalhar. A greve é, no fundo, sempre inaceitável. Mas note-se que, quem o diz, deixa sempre claro que defende o direito à greve, instituído em todas as democracias. Desde que nunca seja realmente exercido. Esgotados todos os argumentos, abriu a época do tiro ao Nogueira. Como se esta greve fosse sua. Ele é do PCP, logo a greve é do PCP. Com 90% de adesão e o apoio de todos os sindicatos a coisa é difícil de vender. Entre os grevistas estarão seguramente eleitores de todos os partidos e gente que não pode ver Mário Nogueira nem pintado. Ou as pessoas julgam que os professores são todos uns idiotas, fáceis de instrumentalizar, ou perceberão que Nogueira apenas se limitou a dar expressão a um sentimento geral que o ultrapassa em muito.
Por fim, é uma forma de diabolizar qualquer tipo de contestação ao governo. Tal como acontece com as greves, não me lembro de nenhuma forma minimamente eficaz de resistência às gravíssimas medidas tomadas por este executivo que não tivesse sido acusada de oportunista, pouco cívica ou antidemocrática. Se se faz greve prejudica-se o País. Se se fazem manifestações, são os comunistas e bloquistas do costume. Se se interrompe a intervenção de um ministro, viola-se a liberdade de expressão. Há sempre uma razão qualquer para não discutir as razões que levam a uma determinada forma de luta e ficarmos a debater a legitimidade dessa forma de luta. Porque quem ouvia defendia a violência? Claro que não. Porque as pessoas perceberam que estavam a ser manipuladas por alguém que as tentava virar contra o exercício democrático do protesto, transformando-o em coisa ilegítima ou mesmo criminosa. E assim dividir os brasileiros, conter a dimensão dos protestos e garantir que tudo ficava na mesma.
É a isso mesmo que assistimos, em Portugal, sempre que qualquer forma de luta pode dar sinais de ser eficaz: seja por causa da ansiedade dos alunos, seja por causa dos prejuízos para economia, seja pelo ódio a um dirigente sindical em particular ou seja por pequenos focos de violência, quer-se manipular a opinião pública para que ela aceite, em silêncio, tudo o que lhe é imposto. Dizendo, claro, que até se é contra as medidas. O problema é que haja alguém que se atreva a resistir a elas de forma consequente e a dar assim, aos restantes cidadãos, um “mau” exemplo. Há que os isolar e colocar na fogueira mediática. Agora é Mário Nogueira. Amanhã será outro que dê a cara por qualquer combate que ponha em causa esta aviltante gestão do discurso da inevitabilidade. O Brasil assiste às maiores manifestações das últimas décadas. Na rua, milhares de pessoas, sobretudo jovens, contestam as prioridades do governo de Dilma Roussef. O rastilho, se é possível identificá-lo, foi o aumento das tarifas de transportes públicos. E, a partir daí, a contestação à orgia de gastos com a organização do Mundial de Futebol e a indignação com a violência policial.
Não deixa de ser perturbante que um país que viveu, nos últimos 15 anos, um autêntico milagre económico e que viu milhões de pessoas passar da pobreza para a classe média mostre este súbito grau de indignação. Como pode um país que vive com péssimos serviços públicos desde sempre, com uma vida urbana insuportável, com índices de criminalidade assustadores e com graus de pobreza indignos acordar repentinamente para velhos problemas quando, apesar de tudo, a sua situação é melhor do que nunca? Como pode o mesmo País que se entusiasmou com a “Tropa de Elite” indignar-se agora com a atuação da polícia militar perante os manifestantes? Como pode um povo que vive soterrado em corrupção espantar-se com as derrapagens na preparação do Mundial de Futebol? Como pode um povo tido como alienado pela bola e o carnaval ganhar tal grau de exigência que pede que o dinheiro vá antes para saúde e educação?
Há quem pense que a razão destas manifestações seja o abrandamento do crescimento económico e a evidência de que o governo está, perante esta conjuntura, a fazer as apostas erradas. Parece-me demasiado simplista para a dimensão das manifestações em causa.
Na realidade, o crescimento económico e algumas políticas sociais mínimas, mas bem sucedidas, da última década, mudaram a realidade social brasileira. Um país composto por uma pequena elite milionária e uma multidão de miseráveis passou a ter uma pujante classe média. E a classe média é a chave da exigência democrática. Sem a autonomia financeira da burguesia e sem a dependência social dos pobres, sem os privilégios dos ricos e o desespero dos miseráveis, sempre foi ela a linha avançada da defesa do Estado Social, da transparência na política e da democracia. E a classe média brasileira cresceu. Cresceu muito.
Com o crescimento da classe média, que é quem se está a manifestar nas grandes cidades, a democracia amadureceu. Ficou mais exigente. O PT já não se pode ficar pela mera distribuição de dinheiro, que o milagre económico permitiu. Nem pode lidar com a contestação como os coroneis e ditadores do passado lidavam com o próprio PT. Os brasileiros estão preparados, porque têm hoje mais formação, informação e ambição, para passar para outra fase: a do desenvolvimento sustentado, a da democracia plena, a de serviços públicos de qualidade, a de um Estado que respeita as liberdades públicas e combate a corrupção, a de uma polícia que se rege pela lei e pelo respeito pelos direitos humanos. E não aceita calado que o mesmo Estado que esbanja dinheiro no Mundial aumente o preço dos transportes públicos. Quer que a riqueza seja canalizada para o futuro e não para os bolsos de milionários e corruptos, os maiores beneficiários de obras faraónicas que deixam pouco para os investimentos que realmente distribuem a riqueza por todos: a saúde, a educação, os transportes e infraestruturas públicas.
Aos novos brasileiros já não chegam os subsídios contra a pobreza. Já não chega a bebedeira do Mundial e dos Jogos Olímpicos e a festa do carnaval. Já não chega pão e circo. Já não chega terem dinheiro para comprar carro. Já não chega almoçar e jantar. Já não chega o acesso à educação e à saúde. Querem cidades onde seja possível viver com o mínimo de qualidade. Querem transportes públicos para todos (mesmo que muitos dos que se manifestem não os usem). Querem escolas de qualidade e um serviço de saúde público confiável. Querem uma polícia civil e civilizada. Querem uma classe política decente. Querem, no fundo, um país onde eles próprios tenham lugar. Porque a classe média não pode pagar os serviços privados que os ricos usam nem está disposta a viver como os pobres. Foi sempre a sua posição intermédia que pressionou, em todo os países desenvolvidos, para a criação e crescimento de um verdadeiro Estado Social, de uma Escola Pública de qualidade e de um serviço público de saúde para todos. É por isso que é idiota acreditar que se pode criar um Estado Social apenas para pobres. Nunca tal existiu. Porque aos mais pobres falta a capacidade reivindicativa para o defender. Só a aliança social entre classes médias e classes baixas o pode garantir.
Lula conseguiu, no meio de muitos erros e escândalos, dar o primeiro salto. Dilma não está a conseguir dar o segundo e dedica-se a alimentar a velha elite, que sempre viveu bem com a miséria do país, e nova elite “petista”, que tomou conta do Estado para proveito próprio. E os brasileiros parecem sentir, quando o tempo das vacas gordas está a chegar ao fim, que ou conseguem agora conquistar um grau de desenvolvimento diferente ou perderão tudo o que conquistaram. O que está a acontecer no Brasil é bom sinal. A nova classe média brasileira quer obrigar o poder político a garantir o futuro de um país onde ela tenha lugar quando houver menos dinheiro. E quer impedir que o dinheiro se esfume em foguetório e bons negócios para uns poucos.
Quando olhamos para Europa e vemos o processo inverso, com a destruição da classe média e a degradação da exigência dos povos, percebemos a tragédia que podemos estar a viver. Enquanto turcos e brasileiros exigem o que há dez anos nem lhes passaria pela cabeça, na Europa aceita-se o que há dez anos seria impensável tolerar. Não são, ao contrário do que se tem dito, os custos do Estado Social e dos serviços públicos de qualidade a razão para este recuo. É o aumento da desigualdade, a consequente degradação das condições de vida da classe média europeia e a alteração da correlação de forças sociais que permite este retrocesso político. Assim como é a redução da desigualdade (mesmo que o Brasil nunca tenha conhecido tantos milionários), o consequente crescimento da classe média e a alteração da correlação de forças sociais que permite a maior exigência de turcos e brasileiros.
Não é possível conquistar mais democracia sem lutar por uma redistribuição mais igualitária da riqueza, na qual o Estado Social e os serviços públicos desempenham um papel central. Não, a questão não é apenas saber se há mais ou menos dinheiro. O Brasil não teria crescido se não tivesse distribuído um pouco melhor a riqueza e não tivesse criado um mercado interno pujante. E não estaria a exigir transportes públicos decentes e uma gestão transparente dos dinheiros do Estado se não tivesse distribuído o seu dinheiro por uma nova classe média, mais informada e exigente.
O nosso Estado Social não está a definhar por falta de dinheiro para o financiar. Está a definhar porque a crescente desigualdade económica na Europa está a enfraquecer a sua principal base de apoio: a classe média. Se permitirmos que este processo continue espera-nos o passado brasileiro. Um passado onde a democracia era uma ficção. Onde a inexistência de uma classe média forte dava às elites e ao Estado que as servia um poder discricionário. É por isso que a luta central é por mais igualdade. A única que garante uma maioria social que trave os abusos, defenda a democracia e exija a dignidade.
O Brasil vive um momento fundamental da sua história: ou dá agora o salto ou volta para trás. A Europa vive um momento fundamental da sua história: ou trava agora a queda ou perde o que conquistou. E a chave, nos dois lados, é a classe média. Quem a trata como privilegiada, perante a dificuldade dos pobres, não percebe que está a criar o caldo social e político em que os pobres nunca deixarão de o ser.
Nuno Crato recusou a proposta de passar o exame de ontem para dia 20. Convocou todos os professores e houve mesmo, segundo relatos dos sindicatos, uma escola onde foram chamados dezenas de professores para vigiar o exame de um só aluno. Noutras, o exame realizou-se na cantina, para poupar nos professores, violando a regra que apenas permite 20 alunos por sala. Até terapeutas da fala, formadores e professores da própria disciplina terão sido chamados para vigiar. Mensagens de telemóvel do exterior com quem estava a fazer o exame, atrasos no começo da prova, alunos fechados à chave nas salas, inexistência de secretariado de exames ou ausência de vigilantes coadjuvantes. Tudo a léguas da normalidade prometida.
O ministro dirigiu-se ao país, no domingo, para dizer que estavam criadas as condições para realizar o exame com toda a tranquilidade. Estava apostado em fazer da ansiedade dos alunos uma arma no braço de ferro com os professores. O resultado está à vista. Quase um terço de estudantes não conseguiu realizar o exame, o que, tendo em conta que todos os professores estavam convocados e que nem dez mil eram necessários, demonstra uma esmagadora adesão à greve. Alguns estudantes viram as condições em que fizeram o exame perturbadas por alunos que, não o podendo fazer, queriam garantir que mais ninguém o fazia.
Já foi marcada nova prova para 2 de Julho. Ou seja, do ponto de vista prático, Crato tem o mesmo problema que teria se adiasse o exame: foi obrigado a encontrar uma nova data, coisa que dizia ser impossível.
Mas Crato tem um problema agravado: como os alunos que não fizeram o exame vão concorrer às mesmas vagas nas universidades do que os que o fizeram, serão avaliados por exames diferentes. Isso cria uma situação de injustiça (as provas nunca têm o mesmo grau de dificuldade) que alunos e pais não deixarão de contestar (já o começaram a fazer). Ao ignorar a ausência de condições para realizar este exame, ao recusar a proposta do adiamento do exame para dia 20 (em que a greve seria impossível) e ao teimar no braço de ferro, Nuno Crato enfiou-se num imbróglio sem saída. Julgava que a chantagem sobre os professores funcionaria e esperava tirar daí dividendos políticos. Não funcionou. Tudo o que fizesse agora para resolver a asneira que cometeu acabaria por criar novos problemas. A isto, num político, chama-se de incompetência.
Não tenho dúvidas que os próximos dias serão usados pelo governo e seus comentadores para responsabilizar os professores por esta confusão sem remédio. E que muitos dos que ainda consideram a greve um mero protesto simbólico, que não deve ter qualquer repercussão prática, acompanharão esta conversa. Não tem razão quem o tente fazer. Mas, mesmo que tivesse, de nada serviria. Quem decidiu manter o exame para ontem foi Crato. Quem tem de responder por tamanha irresponsabilidade é Crato. Quem arrisca a sua credibilidade política em demonstrações de força corre este risco: se a força não for suficiente sai da contenda mais fraco do que estava. Assim ficou Nuno Crato.
Perante a possibilidade dos estudantes fazerem um exame mais tarde (porque, como é evidente, acabarão por ter de o fazer), Nuno Crato, em vez de negociar com os professores o conteúdo das medidas que levaram a esta greve, tentou negociar a própria greve. Mudava a data do exame de hoje se os professores se comprometessem a não fazer mais greves. Nuno Crato não percebeu que o objetivo da greve é obrigar o governo a negociar, não a data dos exames, mas as gravíssimas medidas que unilateralmente impôs aos professores e aos funcionários públicos? Percebeu muito bem. Mas também percebeu que a ansiedade dos estudantes e pais rende. E, à custa da do conflito, quer ganhar uns pontos na sua popularidade. Não me espanta. Apesar de não o parecer, Nuno Crato é um dos ministros mais politiqueiros deste governo.
Crato, com um coro de comentadores que acham excelente o direito à greve desde que seja inócuo, queixa-se da instabilidade que está a ser causada nas escolas. Querem falar de instabilidade? Podemos falar da que ele próprio está a causar quando, sozinho, decidiu suspender o programa de matemática que comprovadamente melhores resultados conseguiu nas escolas. Porque ele não gosta do programa e longe vão os tempos em que o colunista Crato criticava o centralismo autoritário do Ministério da Educação. Estamos a meio de junho e os professores de matemática não sabem que programa vão dar para o ano. Ainda não há manuais e logo se irá improvisar. Isto é a instabilidade que me preocupa porque sou dos que pensam que a escola serve, antes de tudo, para ensinar. Só depois para avaliar.
Instabilidade nas escolas? Mas haverá maior instabilidade do que aquela que é causada pelo terror que Crato espalhou nas escolas, com milhares de professores a desconhecerem em absoluto quanto tempo faltará para que fiquem desempregados? Julgará o governo que isso não se sente nas salas de aula?
O governo quer falar do prejuízo para os estudantes? E que tal falarmos da redução de verbas para alimentação de alunos desfavorecidos, que hoje experimentam a fome na sala de aula por causa da criminosa política de austeridade? Ou do aumento do número de alunos por turma, que torna o acompanhamento aos estudantes com mais dificuldades numa impossibilidade. Ou do ataque ao enriquecimento curricular, que deixará milhares de famílias sem saber o que fazer aos seus filhos quando estes saírem das aulas. O governo quer falar de prejuízos para a educação e para o País? E que tal falarmos dos 40% de estudantes que, indo fazer os exames do 12º ano, já sabem que não querem concorrer à Universidade? Um percentagem sem precedentes na nossa história recente que se explica pelas dificuldades financeiras das famílias, incapazes de comportarem os estudos por mais um ano que seja. O governo quer falar de ansiedade? Falemos da sua tentativa de adiar o pagamento dos subsídios aos funcionários públicos, violando uma decisão do Tribunal Constitucional e não permitindo que estes saibam se podem pagar dívidas, como podem gerir o seu orçamento familiar ou se irão de férias.
Pode um governo que espalha o medo, a ansiedade e a dúvida permanentes em toda a sociedade usar a ansiedade de estudantes e pais por causa de um exame em seu favor? Pode. Porque a hipocrisia não tem limites.
Por dever de solidariedade com quem resiste à arbitrariedade, compreendo que entre o risco do desemprego e um exame, os professores escolham defender o seu posto de trabalho. Mesmo que isso me cause, como pai, ansiedade. Porque sei que os prejuízos que este governo está a causar ao País e à Escola Pública são incomensuravelmente superiores aos que sejam causados por esta greve. Porque sei que a escola que Crato está a construir e aquela que ele está a destruir são assuntos bem mais relevantes do que a data de um exame. Porque sei que a infinita irresponsabilidade deste governo é bem mais destrutiva do que uma greve a um exame.
Provavelmente Nuno Crato vai conseguir, através do esquema de convocar todos os professores e da redução drástica das exigências que sempre existiram para a vigilância às provas, realizar, com uma pequeníssima minoria de professores que não adiram à greve, muitos exames. A questão é se pode continuar a ser ministro com toda a comunidade escolar contra ele.
Atualização: a estratégia de Nuno Crato, de virar os estudantes contra os professores grevistas, está a falhar. Os estudantes manifestam-se, sim, mas contra a trapalhada do Ministério da Educação, que cria a situação de haver alunos com exames e outros sem os poderem fazer. Em Braga, houve mesmo estudantes que invadiram as únicas sete salas (de 23 previstas) onde decorriam exames. E de todos os relatos que chegam a revolta é contra o Ministério e não contra os professores. É que os professores têm uma vantagem em relação a Nuno Crato: estão na escola e contactam com os seus alunos. E têm outra: não fazem parte de um governo que manda os jovens emigrar.
O governo grego decidiu encerrar a televisão pública. A decisão foi tomada à tarde e aplicada à noite. Como se a Grécia estivesse a assistir a golpe de Estado. Ironia das ironias, a única interrupção, até esta semana, das emissões da ERT aconteceu durante a ocupação alemã. Segunda-feira, o sinal foi cortado por forças policiais. A ordem veio da troika, que se comporta como um governo ocupante.
O porta-voz do governo grego, Simos Kedikoglou, tentou justificar o injustificável: “A ERT é um caso de extraordinária falta de transparência e de incrível esbanjamento.” E concluiu, o corajoso: “Isso acaba agora”. Quem oiça este populista elouquecido acredita que a Grécia tem um governo novo, que se deparou com um país em mau estado por culpas alheias. Pois a Nova Democracia e o PASOK governam a Grécia há décadas. Se há esbanjamento, e é capaz de haver, se há falta de transparência, e costuma haver em tudo onde a ND e o PASOK tenham metido a pata, a responsabilidade é sua. Foram suas as administrações, foram suas as políticas. E “isso” não acaba agora. A forma grosseira como esta medida foi tomada apenas prova que “isso” continua como sempre. O mesmo desrespeito pelo Estado, a mesma incompetência, a mesma falta de respeito pelos cidadãos.
O comportamento de ocupante da troika só é possível porque a Grécia, como outros países intervencionados, é dirigida por gente sem coluna vertebral. Que viveu da banditagem e hoje entrega o seu país a quem, através da chantagem sobre todo um povo, a mantenha no poder. O encerramento da ERT ficará como símbolo da insuportável degradação das democracias europeias. E de uma União incapaz de compreender que a humilhação dos povos só lhe pode trazer a desgraça. Se esta é o “projeto europeu” que temos de salvar, que morra depressa. E que, com a sua misericordiosa morte, se salve a Europa e a democracia.
Esta coluna regressa na próxima segunda-feira
No discurso do 10 de junho, o Presidente da República concentrou a sua intervenção no “pós-troika”. Já aqui disse o que pensava sobre o assunto: discutir o que fazer depois ignorando o que se está a fazer agora é uma forma habilidosa de demissão das responsabilidades políticas de cada um. O futuro de Portugal está a decidir-se agora e não é indiferente ao que se possa fazer no futuro os erros que, numa altura tão sensível, sejam agora cometidos.
Cavaco Silva concentrou grande parte da sua intervenção na agricultura. A agricultura é um excelente tema para discutir o futuro próximo e o passado recente de Portugal. Porque foi nela que sentiu de forma mais violenta os erros cometidos na integração europeia – de que Cavaco Silva foi apenas o estreante que deu o mote para os governos seguintes -, a função cumprida pelos fundos estruturais, a cegueira do poder político e do modelo de desenvolvimento em que apostou, os efeitos do mercado único europeu para os países periféricos e os efeitos devastadores do euro na nossa economia. E é também o melhor exemplo de como sair desta crise, já que tem como principal característica a fraca incorporação, para a produção, de bens importados. Recordo que as exportações nacionais incorporam, em média, 40% de importações. Na agricultura e nos sectores ligados à floresta incorporam apenas 27%. Diria mesmo, apesar de não ser esse o tema desta crónica, que seria o sector que mais ganharia com o fim do euro ou a saída de Portugal da moeda única.
Mas o que Cavaco Silva queria era “contrariar algumas ideias feitas”. E percebemos imediatamente ao que vinha. É ao que vem sempre: defender-se de críticas, falar dele próprio fingindo que fala do País. É sabido que uma das maiores críticas que se faz ao legado cavaquista é exatamente no sector da agricultura e pescas, cujo peso na economia era visto, na altura, como sinal de um país atrasado. E Cavaco quis pintar um retrato diferente. Escolhendo cirurgicamente os números que o poderiam socorrer e os indicadores que pudessem contrariar o que se nota à vista desarmada.
Concentro-me nos dados que nos são exibidos pelo recente estudo “25 anos de Portugal Europeu” (cuja leitura aconselho), do insuspeito Augusto Mateus e da ainda mais insuspeita Fundação Francisco Manuel dos Santos. Aí, pode observar-se que, ao contrário do que aconteceu noutros sectores, este foi o único cuja produtividade divergiu em relação à média comunitária. Entre 1986 e 2008 o Valor Acrescentado Bruto gerado pelo sector primário passou de 10% para 2%. Portugal passou de 7º para 12º lugar na representatividade económica do sector (agricultura, silvicultura e pescas). Houve uma queda do volume de mão obra usada (que Cavaco quis traduzir numa maior competitividade que não se verificou) para metade. Entre 1989 e 2009 o número de explorações agrícolas caiu 50%. Muito bem, ficaram maiores. Mas a superfície agrícola utilizada também caiu 9%. A capacidade da frota pesqueira caiu para metade e desapareceram quatro quintos das embarcações de pesca sem motor.
Entre 1986 e 2008, o aumento real da produção agrícola ficou abaixo dos 25% e na pesca caiu 7%. Portugal manteve-se a meio da tabela europeia no crescimento de produção alimentar mas agravou bastante a taxa de cobertura das importações pelas exportações de bens alimentares. Ela era de 43% em 1990 e passou para os 32% em 2010. Na Europa dos 27, só o Reino Unido está pior. Em 1986 importávamos 35% do que comíamos. Em 2007, importamos 50%. Porque, com as alterações do consumo, passamos a consumir coisas que não produzíamos? Não. Porque passamos a importar produtos em que éramos praticamente autossuficientes: hortaliça, fruta, carne e leite. E em 2007, Portugal importava mais de quatro quintos do peixe, oleaginosas e cereais que consumia.
Sim, o tema da agricultura é excelente para discutir porque aceitámos ser financiados para não produzir, numa visão distorcida do que deveria ser a modernização deste sector. Sim, é excelente para falarmos do que foi o desastroso ordenamento do território, a destruição do mundo rural e a desertificação do interior. Sim, é excelente para provar o crónico desequilíbrio de poderes na União Europeia, de que a PAC é apenas um dos exemplos mais escandalosos. Sim, é excelente para discutir os efeitos de uma moeda forte, que torna a importação mais interessante do que a produção para exportar e que arrasou com a competitividade externa de um País que ainda tinha de fazer muito para viver num mercado aberto. Sim, é um excelente tópico para discutir os efeitos que a nossa permanência no euro, nas atuais circunstâncias, terá para a nossa economia. E para determinarmos quais são os sectores onde temos de apostar.
A agricultura só não é um bom tema para Cavaco Silva puxar dos galões dos seus 10 anos de tempo, oportunidades e dinheiro perdidos. Não foi, longe disso, o único responsável pelos números que aqui deixei. Mas foi o primeiro a ignorar a insustentabilidade de um País que desistia de produzir bens transacionáveis. Que se entregava a uma insuportável dependência alimentar. Que se virava quase exclusivamente para os serviços (muitos deles sem acrescentarem valor ao que era produzido) e para a construção em obras públicas (que, sendo precisa, foi muito para além das nossas necessidades quando o dinheiro que chegava em barda nos permitiria desenvolver as nossas atividades produtivas) e na habitação (que, através do financiamento público aos pedidos de empréstimos para compra de casa por jovens e ao absoluto desprezo pelo mercado de arrendamento e a reabilitação, contribui de forma decisiva para o endividamento privado). Foi o primeiro, mas não o único, a ter uma posição acrítica das políticas europeias, que ainda hoje domina a vida política portuguesa. A resumir toda a discussão do papel de Portugal na Europa aos montantes dos fundos estruturais que se encarregou de estourar como se não houvesse amanhã.
Com habilidades estatísticas, Cavaco Silva quis que nos esquecêssemos das suas responsabilidades políticas. De como o que diz hoje é em tudo o oposto do que fez ontem. Escolheu mal o tema. O que aconteceu à nossa agricultura é o melhor retrato de todos os erros que cometemos na nossa integração europeia. E Cavaco Silva, que teve uma década para fazer as escolhas certas, o seu principal protagonista.
O 10 de junho, recordando a morte de Camões nas vésperas do domínio filipino, não assinala, de facto, nenhum acontecimento que esteja na memória coletiva dos portugueses. É uma data criada pelo poder republicano, em defesa do Império e dos mitos nacionais de grandeza, e reinventada e amplificada pela ditadura, que lhe acrescentou o elogio fascista à “raça”. É o dia do poder, não necessariamente do poder democrático. É a celebração do poder, não necessariamente da democracia. Pior: é uma data que só cumpriu a sua verdadeira função durante a ditadura. E as suas comemorações são o retrato disso mesmo: longe do povo, o poder troca comendas entre si. É natural que seja a data predileta do atual Presidente.
As comendas e condecorações são os restos de uma sociedade aristocrática adaptados à República. Compreendo que um intelectual, um cientista ou um jornalista goste de ser reconhecido pelos seus pares. Mesmo sabendo que as razões desse reconhecimento até podem não ser justas. Também compreendo que goste de ver o seu trabalho reconhecido por aqueles a quem ele se destina. Mesmo sabendo que o podem recohecer por razões diferentes às por si desejadas. Custa-me mais perceber a vontade de ver o seu trabalho reconhecido pelo poder político, através dum Presidente, seja ele quem for.
Dirão: não, o reconhecimento vem de toda a comunidade representada pelo chefe de Estado. Simbolicamente, é verdade. Mas não o é de facto. E os símbolos só são relevantes na medida em que tenham uma relação com os factos.
Basta olhar para a lista de pessoas que já receberam estas distinções para o perceber. Entre os comendadores da República temos dezenas de “zés das medalhas”, que subiram à custa de esquemas e foram comprando os favores do poder político com apoios financeiros a partidos e candidatos. Gente mais ou menos obscura de quem a comunidade dificilmente se pode orgulhar. E também alguns artistas cuja relevância apenas resulta do apoio político que deram, a dada altura, a um determinado candidato. Se a comenda faz a honra do comendador, então o comendador também desonra a comenda. No “Dia do Comendador”, intelectuais orgânicos do regime, políticos-banqueiros, autarcas corruptos, patos bravos espertalhões e membros vitalícios das mais diversas comissões de honra misturam-se com empresários honestos, artistas competentes, escritores talentosos e jornalistas independentes, todos demasiado vaidosos para se esquivarem a estas cerimónias fúnebres, em que Fernando Ruas não se distingue de Nuno Júdice e Hélder Bataglia se confunde com José Gomes Ferreira. Tal como existem, estas distinções limitam-se afagar a vaidade de quem aspira ao estatuto de “personalidade” ou à eternidade com certificado público. E a juntar o trigo e o joio. Julgam os homenageados que lhes é prestado um tributo. Pelo contrário, são eles que prestam tributo ao poder que lhes pendura umas bugigangas ao peito. E que espera, em troca deste alimento para o ego, que se mantenham mansamente “respeitáveis” para merecerem o elogio de quem manda.
*Título retirado de “Inventário”, de Alexandre O”Neill, ele próprio feito, depois da sua morte, Grande Oficial da Ordem Militar de Sant”Iago da Espada.
Desculpem não me concentrar no que José Eduardo dos Santos disse sobre os negócios com Portugal, Brasil e, seja lá qual for o interesse, Israel. Não tenho negócios em Angola e esse não é o assunto que mais me comove. Prefiro olhar para o que disse o Presidente sobre o seu próprio governo e a vida política e social angolana.
Sobre isto, José Eduardo dos Santos disse três coisas. Que luta contra a pobreza, está a construir um Estado Social e que essa pobreza resulta da herança colonial. Que combate a corrupção. E que os protestos que existem são de umas poucas centenas de jovens que não conseguiram ter sucesso na sua vida profissional e académica.
Sendo verdade que Portugal não deixou, na sua miserável colonização, mais do que pobreza, ressentimento e quase nenhumas infraestruturas, passaram 40 anos. Sim, houve a guerra civil. Mas ela já terminou há algum tempo. Angola é um dos países com mais recursos em África. Teve um crescimento impressionante e dinheiro é coisa que não lhe falta. Apesar de produzir 1,7 milhões de barris de petróleo por dia, estava, em 2010, em 146º lugar, num total de 169 países, no relatório do PNUD. E, apesar deste enorme atraso, gasta mais dinheiro em formação militar do que no ensino básico. O crescimento económico angolano, como todos sabem, resultou em muito pouco para a maioria da população. Ele traduziu-se quase exclusivamente num enriquecimento pornográfico de uma pequeníssima franja da população. Quase toda ligada ao regime.
E isto permite falar do segundo ponto. O combate à corrupção. A não ser que a família de José Eduardo dos Santos tenha fortuna antiga desconhecida, como se explica a concentração de riqueza nos seus próprios filhos se não através do favorecimento descarado do Estado? Como pode o Presidente, sem se rir (por acaso até acho que se riu), dizer que há uma punição de quem fica com o que não lhe pertence quando a sua família é o mais claro exemplo dessa apropriação ilegítima?
Todos sabem que quem queira fazer negócios em Angola tem que dar dinheiro a ganhar à sua filha Isabel dos Santos. Que esta começou, ainda muito jovem, num negócio milionário de saneamento público, em Luanda, e nunca mais parou. Que é dona de meio país. Que este prodígio empresarial tem negócios, em Angola, Portugal e por esse mundo fora, no petróleo, nos cimentos, na banca, na comunicação social, na hotelaria, nos diamantes, nas telecomunicações. Que, com apenas 40 anos, tem uma fortuna de pelo menos dois mil milhões de dólares, é a 736ª pessoa mais rica do mundo, a 31ª de África e a primeira de Angola. Tudo, evidentemente, por talento próprio. Mas é coisa que corre no sangue da família. Os outros dois filhos do Presidente compram órgãos de comunicação como fossem ao mercado e dedicam-se com especial afinco aos investimentos televisivos angolanos, com a preciosa ajuda da TPA.
Não pode, no entanto, dizer-se que a família Dos Santos seja gananciosa. Manuel Vicente, o seu vice, tem uma sociedade com o ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente, general Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa,” e o general Leopoldino Fragoso do Nascimento, na empresa Nazaki Oil & Gaz, que detém um terço dos blocos petrolíferos de pré-sal 9 e 21 e que se prepara para vender à Sonangol. Isto, sem esquecer os seus generais mais queridos, que também não se queixam da vida e torram o dinheiro dos angolanos em Portugal, na Europa e nos EUA. Seguramente toda esta gente soube poupar os seus magros salários no funcionalismo público. Este é o Estado Social angolano. Distribui, é verdade, a riqueza. Por familiares, amigos, generais, quadros do MPLA, membros do governo. Se sobrarem umas poucas migalhas talvez fique alguma coisa para Angola.
Para ser mais claro: a corrupção em Angola tem um rosto. É o rosto que ontem vimos na SIC. É esta, e não a péssima herança colonial, a razão da miséria angolana. A não ser, claro, que a herança a que o Presidente se refere seja a do nepotismo e compadrio. Aí sim, teremos de reconhecer a nossa culpa: José Eduardo dos Santos é o legítimo herdeiro do pior da nossa cultura. Mas pode orgulhar-se de ter refinado muito a arte de bem roubar e ter dado, nesta matéria, novos mundos ao Mundo.
Sobre os jovens que não se integraram na vida profissional e académica, talvez esteja a falar dos professores em greve por causa de salários em atraso, porque o dinheiro que a família Dos Santos e seus amigos gastam não chega para todos. Ou talvez dos camponeses assassinados nas zonas diamantíferas da Lunda Norte, com a conivência das forças policiais. Ou de Emiliano Catumbela, de 22 anos, detido por ter participado numa tentativa da vigília e que entretanto foi barbaramente torturado pela polícia. Uma vigília que recordava Isaías Cassule e António Alves Kamulingue, dois ativistas desaparecidos há um ano depois de terem organizado uma manifestação de guardas presidenciais e veteranos de guerra, devido a queixas de salários e pensões por pagar. Ou dos moradores do bairro da Areia Branca, junto à marginal de Luanda, que foram escorraçados pela polícia e viram as suas cinco mil casas demolidas em três dias, sem saberem qual será o seu próprio destino. Porque com tanto dinheiro para gastar a elite angolana quer as boas vistas para si própria. Note-se que todos os casos referidos não aconteceram nos últimos anos. Não aconteceram nos últimos meses. São um sucinto resumo, apenas com alguns casos, do mês passado. Todos os meses, mês após mês, ano após ano, estes jovens que não singraram na vida profissional sentem o que é a “estabilidade política e social em Angola”.
Era sobre tudo isto que eu gostava de ter ouvido José Eduardo dos Santos falar. Essa entrevista não ouvi. E é para falar destas coisas que jornalistas fazem entrevistas. Para incomodar os de dentro e os de fora. Desculpem a minha falta de patriotismo. Por esquecer os importantes negócios que “os portugueses” podem fazer em Angola e que Isabel dos Santos e meia dúzia de protegidos do Presidente podem fazer em Portugal.
Nos arredores de Istambul, num gigantesco comício do AKP, de Recep Tayyip Erdogan, não me senti nem no Médio Oriente nem na Europa. Essa ambiguidade é, aliás, a identidade da Turquia. Ao meu lado, havia um casal em que a mulher estava de rosto coberto, apenas com os olhos à vista. À minha frente, uma jovem de classe média exibia os seus cabelos louros pintados e as suas calças justas. É melhor, nesta matéria, não simplificar. Tendo nascido dos movimentos islamistas, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) não tem correspondência com o islamismo político dos países árabes ou do Irão. Porque a Turquia é sempre um caso à parte. Em Istambul, podemos ver, a passear na rua, mulheres de rosto coberto e drag queens. Há movimentos religiosos fanáticos e uma movida gay. As campanhas eleitorais são semelhantes às ocidentais e a caridade muçulmana também faz o seu trabalho político.
A laicidade do Estado turco não corresponde, nunca correspondeu, a um processo democrático. Foi imposta à força pelo fundador da República Turca Mustafa Kemal Ataturk, de uma forma que apenas tem paralelo com o Xá Reza Pahlavi, do Irão. Tratou-se de um processo de secularização radical forçada de toda a sociedade. Com regras sobre a indumentária, forçando estudantes e funcionários públicos a abandonar roupas típicas do Médio Oriente e a europeizarem-se. Em 1925, foi aprovada a “lei do chapéu”, que impunha o uso de chapéus dos “países civilizados”. Em 1935 a lei foi estendida ao resto da roupa. A imposição de um novo alfabeto, a reinvenção da história da Turquia, a perseguição à liberdade religiosa e um poder sufocante do exército e de uma justiça dependente do poder político fazem parte da tradição turca que muitos, no Ocidente, confundem com laicidade e democracia. A ditadura (ou democracia musculada) turca, que quando não era de partido único apenas simulou o pluripartidarismo, foi, durante décadas, tutelada pela elite kemalista, baseada num nacionalismo xenófobo, num totalitarismo cultural e num poder asfixiante do Estado. Até aos anos 90, os militares punham e depunham governos. Os tribunais ilegalizavam partidos e impediam candidatos de concorrer a eleições.
A chegada de Erdogan ao poder foi uma lufada de ar fresco. Em dez anos, desmilitarizou, sempre numa tensão perigosa, o regime. Retirou aos juízes o poder discricionário de limitar a democracia turca. Destronou parte da elite económica, umbilicalmente ligada ao poder político. Até as relações com os curdos tiveram, com altos e baixos, se não uma pacificação, pelo menos um pouco mais de moderação, com um forte investimento no Curdistão turco. O que não espanta. Tendo como principal elemento identitário a religião, e não o nacionalismo radical, a ponte era mais fácil de fazer.
Por outro lado, Erdogan modernizou a economia turca. A Turquia viveu, na última década, o seu período de ouro, com um extraordinário desenvolvimento económico. Sendo de direita, conservador nos costumes e liberal na economia, o AKP retirou o Estado da economia de forma socialmente insensível. O que ajuda a explicar uma das partes da contestação de que vai sendo alvo.
Na política externa, Erdogan deu todos os sinais à Europa da sua real vontade, bem maior do que a dos seus antecessores nacionalistas, de integrar a União Europeia. Sinais a que a Europa, em má hora, não respondeu. Ficamos todos a perder: Turquia, Europa e Médio Oriente. Transformou o país, graças à sua melhor relação com as restantes nações muçulmanas, numa potência diplomática incontornável, na região mais complicada do planeta. E até temperou as tensas relações com o vizinho grego.
Mas, acima de tudo, deu sinais de que era possível um movimento islamista transforma-se numa espécie de democracia-cristã muçulmana (paralelo demasiado livre, que me perdoarão). Aquilo que poderia ser um exemplo para a Irmandade Muçulmana, no Egipto, o Hamas, na Palestina e, acima de tudo, o Hezbollah, no Líbano. Estando bem longe das minhas convicções políticas em todos os domínios, o AKP foi, até certo momento, um ator fundamental na normalização democrática da Turquia.
Também é bom ter cuidado quando se fala da oposição institucional turca (os movimentos cívicos são outra coisa). O Partido Republicano do Povo (CHP), o mais importante oponente do AKP, supostamente de centro-esquerda e em tempos partido único, e a extrema-direita nacionalista do MHP, são tudo menos exemplos de respeito pela democracia e pelos direitos cívicos. Muito do que está a acontecer por estes dias aconteceria, com igual ou pior brutalidade, no tempo em que a oposição laica tinha o poder. A cultura kamalista pode ser laica, mais nunca foi, para além da fachada, democrática. O hábito de fazer cair governos através da ação do exército, a repressão da oposição, o regime de partido único e a brutalidade com os curdos está no seu sinistro currículo.
Mesmo o suposto feminismo da oposição deve ser relativizado. As deputadas não podiam usar lenço – houve mesmo uma que foi insultada quando, por sua vontade, o fez. Mas só havia 4% de mulheres no Parlamento. Mais do que os direitos das mulheres, o que estava em causa era o poder kemalista, que abominava qualquer sinal do poder religioso, que o punha em causa. A mesma lógica que levava os nacionalistas a proibir qualquer referência pública ao genocídio arménio e fazia da questão curda um tabu (os próprios curdos não têm direito a esse nome e são, se a memória não me falha, chamados de “turcos das montanhas”).
O início desta revolta, no Parque Gezi, foi, claro, apenas o detonador de um mal-estar. Se fosse apenas aquilo, a contestação não se teria espalhado a todo o País, incluindo à menos cosmopolita Ancara e a Esmirna. Mas não podia haver melhor símbolo das contradições do governo de Erdogan: a destruição de um espaço público para construir um centro comercial e uma mesquita. A imposição autoritária da vontade do poder em nome da nova e da velha Turquia. Do dinheiro e da religião. E o esmagamento dos protestos, escondido por uma comunicação social dominada pelo regime.
Este é, se me permitem, o fascínio da Turquia. Não é apenas não ser nem Europa nem Médio Oriente. É nada ser tão linear como parece. É toda sua história recente condensar a sua condição híbrida, numa sucessões de movimentos contraditórios: a secularização da sociedade impôs-se com um Estado forte e militarizado, a liberalização da sua economia foi feita por um governo conservador e religioso. Tudo contradiz as dicotomias fáceis, que põem a liberdade, o mercado e a laicidade, de um lado, e a ditadura, o Estado na economia e a religião, do outro. É sempre tudo mais complicado.
E é essa complexidade que faz com que, nos protestos, se junte a esquerda comunista e a extrema-direita nacionalista. Movimentos de tipo “ocupa” e islamistas. Porque a questão da islamização é apenas uma pequena parte do problema. Se quisermos, é apenas a velha parte do problema. Parece existir uma confluência de agendas – direitos sociais, liberdades cívicas, pressões sobre a comunicação social, concentração de poder, resistência à islamização do País, perda de influência externa evidenciada pela guerra civil na Siria. Também pesará o cansaço (mesmo na base de apoio do AKP) com um poder quase absoluto, que venceu três eleições consecutivas e para o qual a oposição política, demasiado heterogénea, não consegue encontrar alternativa.
Mas a questão central parece ser, antes de tudo, aquilo a que o analista político turco Bülent Kenes, citado por Jorge Almeida Fernandes, no “Público”, chamou de “intoxicação do poder”. Entre os muitos sinais de arrogância, está a tentativa de rever a Constituição para transformar a Turquia num regime presidencialista, garantindo assim, depois da candidatura de Erdogan à Presidência, a perpetuação do seu poder pessoal, o que ajuda a explicar algumas dissensões internas no próprio AKP. Em defesa dos direitos dos manifestantes tem estado Abdullah Gül, Presidente eleito com o apoio do AKP, no poder. Mandou retirar a polícia da Praça Taksim e deixou recados ao governo. Também o número dois do governo, Bülent Arinç, pediu desculpa à população pelos erros do Governo nesta crise. Mesmo assim, e é importante ter isso em conta, o partido de Erdogan continua popular nas sondagens. Parece haver uma maioria silenciosa para quem estas manifestações e os abusos que as justificaram dizem pouco.
Mas mesmo a indignação com os abusos de poder, num país que vive com eles desde sempre, é sinal de que a Turquia mudou na última década. O poder do AKP, que esmaga sem dó nem piedade os protestos que o contestam e tomou conta de todo o aparelho de Estado, acabou, ao desestruturar o poder militar e a tradição centralista e antidemocrática kemalista, para garantir o seu próprio domínio da vida política e social turca, por criar as condições para que os seus próprios abusos não fossem tolerados.
Quem veja na Turquia uma continuação da “Primavera Árabe” só pode ficar mais baralhado. O que está a acontecer na Turquia são, em simultâneo, as dores crescimento de uma democracia; a resistência aos abusos de quem conseguiu garantir para si, graças a essa democratização, um poder quase absoluto; os conflitos que uma sociedade cada vez mais capitalista naturalmente vive; e, em simultâneo, a velha tensão entre uma laicidade radical e o islamismo político.
Mas, acima de tudo, de forma violenta e extraordinária, a Turquia está a mostrar que mudou. Não mudou apenas por causa de Erdogan. E mudou mais do que Erdogan queria. Mas essa mudança, onde ele desempenhou um papel central, faz com que o próprio Erdogan não possa governar como gostaria. As manifestações e a sangrenta repressão que se abateu sobre elas podem fazer parecer que a Turquia está a recuar. É, na minha opinião, exatamente o contrário. Ela está a avançar. Com sofrimento e de forma confusa. Como é sempre a mudança. E é essa mudança que travará a brutal repressão que Erdogan, intoxicado pelo poder, impõe aos que lutam pela democracia plena.
Expresso OnLine | Sábado, 22 Junho 2013

sábado, 22 de junho de 2013

Conheça os robôs que escrevem na Wikipedia

PEDRO SANTOS FERREIRA
O artigo um milhão da versão sueca da enciclopédia da Internet causou alarme por ter sido escrito por um programa informático. Os robôs conhecidos por "bots", são afinal responsáveis por quase metade das entradas da Wikipedia.

Se navegar pela versão sueca da Wikipedia, pode certamente encontrar artigos elaborados por robôs. Os "bots", como são conhecidos, estão a substituir os editores da enciclopédia livre e são já responsáveis por grande parte das entradas publicadas.

Através de pesquisas na rede em busca de fontes que reconhecem dados inéditos e geram textos adaptados ao formato da Wikipedia, o programa informático utilizado pela enciclopédia, tem cada vez mais importância. Contudo, a maioria dos utilizadores mostra-se descontente com este processo, segundo o jornal espanhol "ABC".

De acordo com a Wikipedia, "alguns colaboradores estão autorizados a utilizar contas de utilizadores marcadas como "bots". Estas contas são utilizadas com o objetivo de executar programas cuja função é simplificar ou automatizar a realização de tarefas", como por exemplo, publicar páginas noutros idiomas e corrigir eventuais erros.

A polémica surgiu com a publicação da entrada um milhão na versão sueca da Wikipedia, na semana passada, relacionada com uma mariposa chamada Erysichton Elaborata e que terá sido escrita por um robô, chamado "Lsjbot", que conta já com cerca de 454 mil artigos produzidos, quase metade do total de conteúdos para a Wikipedia sueca.

No caso deste artigo, a entrada referia apenas a existência desta espécie, sem menção ao outros detalhes, como por exemplo, o seu habitat ou local de origem.

A celebração na Suécia deu origem ao descontentamento de utilizadores espalhados pelo mundo inteiro, preocupados com os artigos escritos por "bots", com muitas hiperligações e poucos detalhes.

A enciclopédia livre, fundada em 2001 por Jimmy Wales, respondeu às críticas e admitiu que as informações em causa, são pobres. O editor da Wikipedia Lennar Guldbransson lembrou que os artigos mais extensos não têm que ser necessariamente melhores, apesar de conterem sempre mais informação.

Em versões mais pequenas da enciclopédia, como se verifica na Holanda e na Polónia, os geradores de texto automático têm grande utilidade. "Na Holanda 57% dos artigos são redigidos por "bots", refere o "ABC".

A Wikipedia sublinha que estas páginas escritas por robôs são um bom ponto de partida para os utilizadores que querem adicionar novas fontes aos artigos, atualizá-lo e melhorá-lo, tal como aconteceu com o artigo sobre a mariposa, depois de um editor ter completado a entrada com o local de origem e uma referência à costa oriental da Austrália.

Atualmente, a Wikipedia inglesa tem o maior número de artigos publicados, com 4,2 milhões de entradas. A versão portuguesa está em décimo primeiro lugar no que diz respeito ao número de artigos, com quase 785 mil entradas registadas, segundo dados da própria Wikipedia.
Jornal de Notícias, 22 de Junho de 2013

PROVEDOR DO LEITOR: Referências étnicas sobre protagonistas têm de ser criteriosas

por OSCAR MASCARENHAS

Estava o mundo em plena Guerra Fria e os norte-americanos pretendiam infiltrar um espião na União Soviética. Prepararam-no com todos os cuidados, treinando-lhe até o sotaque específico da aldeia siberiana para onde iria ser lançado, identificando-o com todos os pormenores da vida dos aldeões.
Certa noite, foi lançado de paraquedas para junto da aldeia e, depois de envergar roupas tradicionais da região, entrou na única taberna do povoado.
"Olá, Boris", disse para o taberneiro. "A tua filha Irina já teve o bebé?"
"Já, sim, correu tudo bem", respondeu Boris. "Mas o senhor é espião americano, não é?"
Perplexo, o espião tentou desviar a conversa. "Olá, Ivan, como vai a vaca que estava doente?"
"Já está boa, felizmente", disse Ivan. "Mas o senhor é espião americano, não é?"
Desesperado, o espião desistiu. Confessou, descreveu os treinos que tivera e perguntou: "Como é que descobriram?"
"É que nunca tínhamos visto um negro aqui na aldeia", explicaram todos, em uníssono.
Comecei com esta anedota disparatada para recorrer ao método de redução ao absurdo na abordagem de uma questão para a qual não tenho nem nunca tive resposta segura - e receio bem que nunca chegarei a ela: é ou não correto fazer referências étnicas aos protagonistas de um episódio noticiado?
A anedota elucida o nonsense a que se pode chegar quando se cumpre aquilo a que está muito em voga chamar-se o "politicamente correto". Não é nada politicamente correto, é apenas disparate, tolice, tonteira, absurdo, asneira, despropósito - tudo menos politicamente correto. Eu, pelo menos, sou defensor do que é politicamente correto: a alternativa seria o politicamente incorreto? Politicamente correta é a atitude que respeita valores e princípios que se pensam serem os mais adequados para a saudável convivência dos cidadãos, com respeito pela liberdade e dignidade das pessoas. O curioso é que o termo "politicamente correto" é brandido como arma ideológica pelos sectores mais conservadores, pelas pessoas que passam a vida a obedecer cegamente ao "sempre assim foi, sempre assim será", sem perderem um segundo a pensar no assunto e fazendo chiu! a quem queira refletir em voz alta. O "politicamente correto" passou a ser o cartaz de rebeldia dos conservadores, para não dizer reacionários. (Se Durão Barroso veio - com pedido de desculpas logo a seguir, é claro - reintroduzir o termo "reacionário" no discurso político, então a palavra corre sérios riscos de ser politicamente... incorreta!)
Voltando à questão da aceitabilidade ou não das referências étnicas, a primeira prevenção que surge está no risco de se desencadearem generalizações apressadas. A tendência natural - mas errónea - é identificar pessoas, nos seus caracteres e comportamentos, pela semelhança que têm em relação a outras. A verdade é que todas as generalizações nos desviam da verdade. Sabe o leitor qual é a única frase correta que se pode construir a partir de "os portugueses são..."? É esta: "Os portugueses são - cidadãos de Portugal." Mais nenhuma frase é cem por cento válida. Isto é, não há mais nada que identifique todos os portugueses.
As generalizações nem sempre são depreciativas, mas continuam enganadoras: veja-se a inveja que temos dos quenianos e etíopes papa-maratonas, mas não creio que quando soubemos que o troicano Abebe Aemro Selassie é etíope, a nenhum de nós tenha ocorrido a imagem de uma incansável gazela...
A verdade é que as pessoas fazem naturalmente generalizações. Por alguma razão se diz que gato escaldado de água fria tem medo. A questão aqui não é saber se alguém se escaldou: basta que tenha sabido de alguém que sabe de outro alguém que ouviu dizer que um longínquo alguém se escaldou. E as notícias nos jornais são, digamos, notícias de escaldadelas. Daí o cuidado a ter.
Estive recentemente na Bélgica e na Holanda e colhi a impressão de que muita gente se sente desconfortável com a presença de "marroquinos". Da direita à esquerda, é indiferente, a linha de demarcação não é política, no sentido tradicional: é escaldadela ou temor de escaldadela. E esses temores são inelutáveis se forem instilados pelo discurso político. Na verdade, não é muito preocupante que os cidadãos resmoneiem entre dentes "os africanos são isto", "os romenos são aquilo" e por aí fora. Mas se um político for à televisão, mesmo com muitas cautelas no vocabulário, exprimir alguma coisa que aquelas pessoas queriam ouvir e acham que ouviram, bem pode o político ter a certeza de que chegou chama à mecha.
A verdade é que a culpa não é exclusiva de oradores da maioria, numa determinada sociedade. O bom princípio de "em Roma sê romano", que foi sempre um lema de boa integração da grande maioria dos emigrantes portugueses em toda a parte, está caído em desuso no seio de diversas comunidades minoritárias, em especial aquelas que mantêm vínculos a uma liderança que as acompanhou e que continua, no país de acolhimento, a impor a sua dominação ideológica e na moral coletiva, abrindo guetos onde podem perpetuar o seu mando.
Não chega fazer um esforço para corrigir os sentimentos quase instintivos que se têm em relação a "eles", as minorias. Do lado de algumas comunidades minoritárias, a comunidade hospedeira também é vista como "eles". E "eles" com "eles" dá a faísca que o "nós" evitaria.
Que podem, então, os jornalistas fazer? Não desfigurar a realidade, pelo exagero, pela difusão de temores através do que fica dito mesmo sem ser dito. Mas também não é aceitável desfigurar a realidade pela omissão daquilo que é importante para o entendimento.
Tivemos, recentemente, no DN, três exemplos de referências étnicas ou nacionais: há uns dias, as forças policiais capturaram, numa operação quase militar, uma quadrilha que se dedicava ao furto e ao roubo de cobre e chumbo das cablagens elétricas. A primeira notícia no online do DN foi desastrosa: falava em "gangue brasileiro" no título e, curiosamente, nada era dito no texto sobre a nacionalidade dos capturados. Protestou um leitor, reencaminhei a queixa e, numa operação fulminante - os jornalistas também conseguem, não são só as polícias... - o título foi corrigido.
No dia seguinte, a notícia descrevia em pormenor a operação, sem referências à nacionalidade no título, informando que os 11 elementos detidos são cidadãos brasileiros. É apenas um facto, mas ainda continuo com dúvidas sobre se era ou não relevante indicar a origem nacional dos capturados, porque a notícia não me dava elementos. São 11 brasileiros que já se conheciam no Brasil e que vieram com quadrilha formada? São brasileiros que se organizaram em Portugal, depois de se terem conhecido por razões de vizinhança ou parentesco? Ou foi apenas coincidência serem todos brasileiros? Na resposta a estas perguntas poderá estar a chave sobre se se devia ou não dizer que são cidadãos brasileiros.
Numa outra notícia, relatava-se o assassínio de alguém pelo seu primo, à porta de um centro comercial. A notícia foi escrita com cautela mas soaria a completamente disparatada se não houvesse a referência que tudo se passara no seio de uma comunidade cigana: uma foto, mostrando numerosas mulheres à porta de um hospital, todas elas envergando as roupas tradicionais dos ciganos, tornava ridículo que não se fizesse a identificação comunitária. E a autora da notícia recorreu a um expediente inteligente para dar o facto e o seu enquadramento: a vítima era muito respeitada na comunidade cigana. Ora aí está uma solução acertada e elegante.
Certas referências étnicas ou comunitárias podem ser essenciais numa notícia: um tiroteio às claras entre duas famílias pode ser raro, mas não é invulgar em comunidades ciganas e albanesas - onde a moral coletiva dominante chega a mobilizar clãs para lutas fratricidas tendo a "honra" como pretexto ou pano de fundo. É verdade que nem todos os ciganos ou albaneses se andam a matar em campo aberto por questões de "honra", será mesmo uma ínfima minoria. Mas não é menos verdade que, se houver um tiroteio desses, a probabilidade de ser um confronto entre famílias ciganas ou albanesas é a maior: o tiroteio entre duas famílias burguesas da Avenida de Roma dava tema para romance e telenovela!
Nesta última quinta-feira, o DN noticiava o início de um julgamento de um duplo filicídio sórdido: uma mãe, confessadamente com desejo de vingança do marido e da sogra, terá ensaiado e depois matado os seus dois filhos bebés, provocando um incêndio no quarto das crianças que as intoxicou mortalmente.
Por diversas vezes - nomeadamente no pós-título da notícia - a arguida é identificada como "mãe brasileira". Numa pequena nota ao lado da notícia principal, é referido que terá alegado que havia seis anos que não via a família no Brasil e que o marido não autorizava que ela fosse ao seu país natal com os filhos, que tinham dois anos e meio e onze meses em dezembro, altura em que foram mortos. Mas a própria nota relativizava aquela suposta saudade familiar, referindo que a mãe da arguida tinha vindo a Portugal no ano passado.
Tudo isso, no entanto, não justifica a identificação da pessoa como "mãe brasileira": não consta que no código genético dos brasileiros, nos seus costumes ou nas suas crenças haja alguma coisa que diga que quando uma mãe é contrariada porque não pode voltar à sua terra, zás!, mata os filhos. O DN pode ter entendido que havia algum acréscimo de informação com a referência à origem nacional da visada na notícia. Mas decerto a relevância não era tanta que justificasse a sua inserção no pós-título, que pertence à área do título.
Não sou capaz de formular qualquer regra sobre esta matéria que vá mais longe do que isto: é preciso analisar caso a caso e é necessário que a referência étnica seja, de facto, relevante para o entendimento da notícia. A prudência deve ser redobrada se se pensar em colocar tal referência na área do título. Nunca devemos esquecer que um título é uma notícia gritada num megafone - e o ruído é tal que nos pode atrapalhar o juízo.
Diário de Notícias, 22 de Junho de 2013

LUSA 
Portugal é o mais rápido a decidir no Supremo, mas dos mais lentos nos tribunais de primeira instância, conclui estudo da OCDE.

Portugal surge retratado num relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), divulgado nesta sexta-feira, como o mais rápido a decidir os processos no Supremo — média de 90 dias —, mas, em contrapartida, tem uma das justiças mais lentas nos tribunais de primeira instância.

O relatório da OCDE indica que a duração média dos processos judiciais em primeira instância em Portugal é de 425 dias, uma lentidão que só é ultrapassada pela Itália (564 dias). Eslovénia (420 dias), Eslováquia (354 dias), México (342), Holanda (305) e França (304) são os outros países com uma duração mais longa dos processos em primeira instância.

Já o Japão (107 dias), Áustria (129), Suíça (121), República Checa (135), Coreia (144), Grécia (155), Noruega (160), Polónia (167), Nova Zelândia (171), Rússia (176) e Suécia (186) são países que apresentam uma duração média dos processos em primeira instância inferior a 200 dias, ou seja, menos de metade do tempo gasto em Portugal para o efeito.

Relativamente à segunda instância, Portugal apresenta uma duração média dos processos de 120 dias, que o coloca no meio de uma tabela que tem nos lugares cimeiros a Polónia (43 dias), a Eslováquia (76) e a República Checa (77) e na pior posição a Itália, com 1113 dias.

Ao nível dos tribunais superiores, a medalha de ouro em termos de celeridade processual vai para Portugal (90 dias), mas quanto à duração média total dos processos (englobando todas as instâncias) a média portuguesa cai para 635 dias, semelhante à de países como a Nova Zelândia (648), Eslováquia (624) e Finlândia (609). Suíça (368 dias), Japão (368), Estónia (422) e Hungria (454) são os países que apresentam uma maior celeridade processual e eficácia da justiça, tendo em conta a duração média total dos processos.

Quanto à celeridade por regimes jurídicos, a justiça nórdica tem a melhor média total de duração dos processos (568 dias), seguida do direito germânico (587), do sistema anglo-saxónico (777) e do sistema francês (1307), sendo que Portugal incluiu-se neste último.

Quanto à alocação de fundos públicos e orçamentais para a justiça, o relatório da OCDE indica que Portugal é o país que, em termos percentuais (81,2%), mais gasta com salários, sendo a Irlanda (35,6%) o país com menor percentagem do seu orçamento para a Justiça dedicado a este item.

O relatório da OCDE refere ainda que Portugal gasta 4,3% das verbas orçamentais para a justiça em formação, 2% em informatização, 7,3% em custos operacionais e 5,2% em outras despesas da Justiça. Em gastos com salários (em termos percentuais), apenas a Hungria (80,7%), Suíça (77,2%), Estónia (77%) e Finlândia (76%) se aproximam dos valores lusos.

O relatório sublinha que o bom funcionamento do sistema judicial desempenha um papel determinante no desenvolvimento económico, garantindo a segurança jurídica dos contratos e favorecendo o investimento, mas que nem todos os países possuem o mesmo nível de eficácia do aparelho judiciário.

Salienta que a duração média dos processos em primeira instância nos países da OCDE é de 240 dias, mas que alguns países (nos quais Portugal se inclui) têm quase o dobro desta duração nesta instância.

O documento aponta como factores associados à celeridade processual as maiores fatias do orçamento para a justiça e o investimento na informatização, a produção de estatísticas ao nível das diversas instâncias, a existência de tribunais especializados (por exemplo, de comércio) e uma melhor gestão no funcionamento dos tribunais.

Nota ainda que em muitos países houve uma restrição dos recursos para os tribunais superiores, o que permite concluir os processos de forma mais rápida.
 Público, 22 de Junho de 2013

Detido na manifestação de 14 de Novembro condenado a três anos de prisão com pena suspensa

LUSA
Arguido agora condenado foi um dos nove detidos na manifestação do dia da greve geral.
A manifestação junto à escadaria do Parlamento foi dispersa após uma carga policial 

O Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa condenou nesta sexta-feira com pena de três anos, suspensa pelo mesmo período, um dos detidos frente à escadaria da Assembleia da República no protesto de 14 de Novembro.

A juíza Conceição Moreno, da 3.ª Secção do 2.º Juízo, considerou que Leandro Silva, um dos nove detidos na manifestação do dia da greve geral, teve "uma conduta obviamente grave".

O jovem, com antecedentes criminais, era acusado dos crimes de desobediência, resistência e coacção sobre funcionário na manifestação do dia da greve geral.

"O tribunal não teve qualquer dúvida da prática dos factos", disse a juíza, na leitura da sentença, acrescentando que foi provado que Leandro Silva "arremessou garrafa contra as autoridades policiais" durante a manifestação.

Em sessão de julgamento, o arguido admitiu ter atirado uma garrafa, mas negou que tenha sido em direcção a um elemento da polícia, salientando que o fez contra manifestantes de cara tapada que ateavam fogo a um contentor do lixo.

"Nada do que disse ao tribunal fez qualquer sentido, e nem sequer se pode invocar que estava numa manifestação, para justificar os seus comportamentos", referiu a juíza.

Leandro Silva foi um dos nove detidos na manifestação frente à Assembleia da República, a 14 de Novembro, dia de greve geral. A manifestação junto à escadaria do Parlamento foi dispersa após uma carga policial.
 Público, 22 de Junho de 2013

Condutor morre quando estava a ser multado pela GNR

LUSA 
Rasgou a multa e caiu de imediato no solo com uma paragem cardiorrespiratória.
Homem estava a ser multado pela GNR
Um automobilista morreu na tarde desta sexta-feira, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória, depois de ter sido autuado pelas autoridades, na zona de Portalegre, disseram à agência Lusa fontes da GNR e do hospital da cidade.

A fonte da GNR explicou à Lusa que os militares, ao inspeccionarem a viatura da vítima, no decorrer de uma fiscalização de trânsito, junto à aldeia de Alagoa, perto de Portalegre, autuaram o homem por falta de inspecção periódica obrigatória do veículo em que seguia.

Após a entrega dos autos de contra-ordenação, o homem, residente no concelho de Nisa, "rasgou os documentos e, de imediato, caiu no solo", relatou a fonte.

Fonte do Hospital de Portalegre adiantou à Lusa que elementos do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) deslocaram-se ao local, fizeram manobras de reanimação, mas o homem acabou por morrer, vítima de paragem cardiorrespiratória.

A fonte da GNR indicou que o incidente ocorreu cerca das 15h30.
 Público, 22 de Junho de 2013

A Universidade de Coimbra é símbolo de uma “cultura que teve impacto na humanidade”

ANDRÉ JEGUNDO, MÁRIO LOPES

Após quinze anos de um trajecto longo e complicado, a candidatura da Universidade de Coimbra foi hoje reconhecida como Património Mundial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), decisão tomada na 37ª sessão do Comité do Património Mundial, que está a acontecer em Phom Penh, no Cambodja.

Apesar dos últimos pareceres feitos pelo ICOMOS – órgão consultivo da Unesco – que aconselhavam a não inscrição, já esta sessão, da Universidade de Coimbra (UC) na lista do património mundial, os vários representantes dos países do Comité do Património Mundial foram unânimes no reconhecimento da valor da candidatura.

Para além dos critérios no qual a candidatura vinha fundamentada, e que tinham que ver sobretudo com o valor patrimonial do conjunto de edifícios que integram a área da candidatura, foi acrescentando um terceiro critério que reconhece a UC como símbolo de uma “cultura que teve impacto na humanidade”, diz o reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva.

O que foi distinguido não é apenas um conjunto de edifícios antigos e bonitos. A universidade foi reconhecida como o ícone de uma cultura e de uma língua que é portuguesa

João Gabriel Silva, reitor da UC
“Para mim, como reitor, isso ainda torna este momento mais emocionante e especial. O que foi distinguido hoje pela Unesco não é apenas um conjunto de edifícios antigos e bonitos. A Universidade de Coimbra foi reconhecida como o ícone de uma cultura e de uma língua que é portuguesa, que ajudaram a modelar o mundo como o conhecemos. É uma coisa de uma dimensão extraordinária. Como reitor até me sinto pequenino perante uma coisa desta dimensão”, afirma.

Clara Almeida Santos, vice-reitora para a Cultura e Comunicação, que está no Cambodja a representar a universidade, diz ter ficado “comovida” com a forma como os delegados dos países membros do Comité do Património Mundial, subscreveram a “inscrição imediata da Universidade de Coimbra na lista de Património Mundial”, apesar do parecer do ICOMOS.

“E com intervenções que nos devem deixar extremamente orgulhosos, porque falaram na importância da universidade na divulgação da ciência e da língua portuguesa no mundo. O embaixador indiano referiu a importância da língua portuguesa como veículo de cultura e com uma influência expressiva na Índia. O embaixador tailandês agradeceu a Portugal ter levado as malaguetas para a Tailândia”, descreve.

“Ficámos muito orgulhosos de ouvir 21 membros de países diferentes, de todas as partes do mundo, a defenderem a inscrição imediata da universidade na lista do Património Mundial porque reconheceram nela um valor excepcional”, acrescenta o presidente da autarquia de Coimbra, João Paulo Barbosa de Melo, que está também no Cambodja.

Para o autarca, a decisão da Unesco representa uma “enorme responsabilidade” para a cidade, para a universidade e para o país de “fazer mais e melhor por este património que foi hoje distinguido”. “Hoje chega ao fim um trabalho de anos. Foi um trajecto difícil. Mas amanhã começa um novo desafio: começa o trabalho da universidade, da cidade e das autoridades nacionais de se empenharem ainda mais na valorização e preservação deste património e de cuidá-lo para futuras gerações. É uma grande responsabilidade”, afirma, convidando a cidade a “festejar” a decisão da UNESCO.

Para amanhã está marcada a inciativa “Coimbra em Festa”, que vai decorrer a partir das 16h na Praça do Comércio, na Baixa de Coimbra, e que vai contar com a actuação de vários grupos musicais.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros, numa reacção à Lusa, considerou que a classificação beneficiará “a economia, o turismo, o conhecimento e o cosmopolitismo” da cidade, mas que também é “muito prestigiante” para Portugal.

“É um grande dia para Portugal e para Coimbra. A meritória candidatura a património mundial passou com brilho e beneficiará” a cidade em várias áreas, afirmou Paulo Portas numa declaração escrita. O ministro agradece “o trabalho impecável” não apenas do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), da Comissão Nacional da UNESCO e da embaixada, como também “o trabalho incessante dos promotores da ideia, desde a autarquia até à universidade".

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros acrescentou que esta distinção é um “reconhecimento internacional, que agora é muito justamente atribuído a Coimbra”. Para o ministério, constitui um “motivo de orgulho e regozijo” para a cidade e para o país e “dá conta da confiança da UNESCO na capacidade de o Estado para preservar o valor dos seus bens patrimoniais”.

Já o presidente da Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal, Pedro Machado, disse que a classificação “é uma grande porta que se abre” para o turismo da cidade. “É uma excepcional notícia Coimbra ter atingido este galardão”, declarou Pedro Machado à agência Lusa, realçando que a decisão do Comité da UNESCO “é o reconhecimento de Coimbra pela sua história, pelo seu património” e pelo papel da sua universidade, fundada em 1290, “na formação de tantas gerações espalhadas pelo mundo”.

Esta classificação, segundo Pedro Machado “pode posicionar Coimbra, mais e melhor, naquilo que é o desafio dos mercados em matéria de competitividade e atractividade” na área do turismo.

Walter Rossa, catedrático de Arquitectura da Universidade de Coimbra, não foi apanhado de surpresa pelo anúncio da classificação. “Acompanhei de perto o trabalho e, como tal, estava absolutamente convencido de que ia ser classificada”. Para Rossa, a universidade “tem um valor absolutamente excepcional na história mundial”. Como um dos investigadores co-responsáveis, na Fundação Gulbenkian, pela criação do portal www.hpip.org, que inventaria o património português espalhado pelo mundo, destaca que “o império português foi um dos primeiros dois à escala mundial, mas enquanto os espanhóis tinham várias universidades, o português só tinha Coimbra. Do ponto de vista da formação de quadros para todo o império, é imbatível”, acentua. “Não há outra instituição universitária que tenha tido essa relevância”.

Daí considerar que, mais que o património edificado – “e eu sou arquitecto, portanto estou à vontade para o dizer” –, o que é “verdadeiramente importante” é o “património imaterial, o valor cultural simbólico que a Universidade de Coimbra tem a nível universal”.

Para Coimbra, hoje, a classificação pela UNESCO significará, na visão de Walter Rossa, “uma responsabilização das entidades” perante a cidade, sua história e património, mas também dos cidadãos. “Estas distinções têm a enorme vantagem de os envolver nos processos de decisão e no dia-a-dia de gestão do património”. Tal pode ser muito importante numa cidade que precisa de “um grande impulso de regeneração urbana”.


15 patrimónios mundiais
Apesar de ser uma aspiração antiga, o projecto da candidatura começou a ganhar forma em 1999 a partir da tese de doutoramento que António Pimentel, actual director do Museu Nacional de Arte Antiga e o primeiro director científico da candidatura, realizou sobre o Paço das Escolas.

Com o tempo, a candidatura alargou também o seu âmbito: do Paço das Escolas passou a incluir toda a Alta universitária e Rua da Sofia, num conjunto de mais de 30 edifícios, e ao património material juntou o imaterial, como a produção cultural e científica, as tradições académicas, o papel desempenhado ao serviço da língua portuguesa.

A Universidade de Coimbra fica agora no restrito lote em Portugal do património mundial da UNESCO, que sobe assim até às 15 classificações. Junta-se ao centros históricos de Angra do Heroísmo (Açores), Porto, Évora e Guimarães, aos mosteiros da Batalha e Alcobaça, ao Convento de Cristo (Tomar), ao Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, à paisagem cultural de Sintra, às gravuras rupestres de Foz Côa, à região do Alto Douro Vinhateiro, à paisagem da cultura da vinha da Ilha do Pico (Açores), às fortificações de Elvas e à laurissilva da Madeira.

Na terça-feira, a UNESCO classificou o diário da primeira viagem comandada por Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para a Índia (1497-99), atribuído a Álvaro Velho, como Memória do Mundo.
Público, 22 de Junho de 2013

Seara mantém candidatura a Lisboa e responde aos tribunais

SOFIA RODRIGUES
Candidato da coligação PSD/CDS/MPT fez declaração sem a presença de dirigentes nacionais dos dois maiores partidos.
Seara não poupou os tribunais

O ainda presidente da Câmara de Sintra disse mesmo o que esperar do TC. "A apreciação do Acórdão da Relação de Lisboa pelo Tribunal Constitucional não poderá, do ponto de vista da sua validade constitucional, deixar de ser muito crítica das suas razões e ter como consequência final a sua revogação", afirmou, acrescentando contudo que "jamais seria capaz" de "qualquer intenção ou ousadia irreflectida de afrontar o poder judicial". E aos jornalistas até ironizou com o respeito que tem pela justiça. "Tanto respeitei o Tribunal Constitucional sobre o Orçamento do Estado que paguei anteontem o subsídio de férias."

O autarca social-democrata insistiu: "Enquanto jurista e docente universitário de direito constitucional não tenho a mínima dúvida sobre a minha legitimidade para me apresentar como candidato à presidência da Câmara de Lisboa." 

Fernando Seara vai recorrer para o TC da decisão de ontem do Tribunal da Relação e pedir efeito suspensivo para poder começar a fazer campanha.
Público, 22 de Junho de 2013

Cortes no Estado aprovados ainda em Julho

Governo reservou plenário de dia 11 para medidas que quer ver aprovadas até às férias do Verão
O governo vai aprovar e enviar para a Assembleia da República todas as medidas de corte na despesa do Estado que podem causar dúvidas de constitucionalidade – e o mais rapidamente possível, para serem aprovadas pelo parlamento ainda em Julho. Para isso já garantiu que há um plenário marcado para dia 11, para a discussão ser feita a tempo de o Presidente da República analisar tudo nas férias parlamentares. Em causa estão as principais reformas da Segurança Social, como a alteração ao factor de sustentabilidade e as mexidas nas reformas dos pensionistas do Estado (convergência dos regimes e dos cálculos das pensões, a juntar aos dois diplomas sobre a função pública já agendados para esse dia.
O objectivo do governo é ter tudo pronto e aprovado no parlamento em tempo recorde para que o Presidente da República possa analisar e enviar para fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional. O “Sol” escrevia ontem que o governo esperava que Cavaco enviasse para o TC, preventivamente, estas normas, para que os juízes se possam pronunciar antes de o executivo apresentar o Orçamento do Estado para 2014.
As principais medidas que podem suscitar dúvidas constitucionais são as aplicadas à Caixa Geral de Aposentações. Se a sua integração no regime geral não levanta problemas, os cortes que o governo quer aplicar aos pensionistas do Estado, ao mudar o cálculo das pensões, já levantam dúvidas. Tendo em conta que o executivo se comprometeu a poupar com esta medida 672 milhões de euros, não podem ser afectados apenas os novos pensionistas. No entanto, as mexidas nos cálculos das pensões já atribuídas podem ser consideradas inconstitucionais. Ao que o i soube junto de fonte do governo, também a medida de aumento da idade real da reforma, através da alteração do factor de sustentabilidade, vai ser aprovada nos próximos Conselhos de Ministros e entrar no parlamento a tempo das férias parlamentares.
Os prazos são, no entanto, apertados. O parlamento só está em funcionamento, na prática, até 24 de Julho, dia em que serão feitas as votações finais globais. O debate do Estado da Nação – o último do ano parlamentar – está marcado para dia 12 e, a não ser que na próxima conferência de líderes parlamentares (marcada para dia 5 de Julho) se decida uma alteração de calendário, o governo, se quer ver o assunto discutido pelo parlamento, vai ter de o fazer no plenário de dia 11. Que, aliás, foi reservado pelo executivo para a discussão de propostas próprias. Ora, por norma, as propostas dão entrada na Assembleia até à sexta-feira antes de serem debatidas. Se assim o fizer, o governo tem apenas até ao dia 5 de Julho para aprovar os cortes no Estado em Conselho de Ministros.
Programa de governo parte II Hoje o governo vai discutir as linhas gerais da reforma do Estado, apresentadas por Paulo Portas. O objectivo do governo é preparar os próximos dois anos de governo. Este guião da reforma do Estado vai sobretudo definir as linhas políticas: dar ênfase ao crescimento e menos aos cortes; preparar o discurso europeu; falar em coesão social e na relação entre o Estado e os cidadãos.
A par deste documento, o ministro adjunto do primeiro-ministro, Miguel Poiares Maduro, quer recolher todas as medidas que todos os ministérios estão a preparar, numa espécie de “programa de governo parte ii”. Estes dois documentos vão servir de guia à parte final do mandato do executivo de Passos Coelho e inserem–se na tentativa do ministro de coordenar politicamente os ministérios.
Poiares Maduro entrou no governo para substituir Miguel Relvas, acusado de falhar na coordenação do governo. Além do documento que concentra as medidas de cada ministério, Poiares Maduro vai promover na Presidência do Conselho de Ministros encontros diários com os jornalistas para que o governo possa dar explicações sobre os temas da actualidade.
ionline.pt | Sábado, 22 Junho 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Assembleia da República

Venda de 44 casas de magistrados

O Ministério da Justiça (MD vai vender em hasta pública, entre 24 e 27 de junho, 44 casas destinadas a magistrados, pretendendo o Estado arrecadar 3,2 milhões de euros. Este é a segunda vez que o ministério coloca à venda as chamadas “casas de função”, usadas para acolher os juizes deslocados da área de residência.
Diário Notícias | Sexta, 21 Junho 2013

Fernando Seara à espera do Constitucional

O TRIBUNAL tinha já inviabilizado a candidatura de Fernando Seara à Câmara Municipal de Lisboa. Ontem, a Relação confirmou a decisão. E o ainda autarca de Sintra, até agora remetido ao silêncio, prometeu reagir. Não para dizer que respeita o tribunal. O autarca do PSD não desiste de Lisboa e recorre ao Tribunal Constitucional.
Jornal Notícias | Sexta, 21 Junho 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tribunal da Relação impede Seara de se candidatar a Lisboa

Autarca adiantou à Renascença que vai recorrer desta decisão.

20-06-2013 12:57

Fernando Seara está impedido de se candidatar à Câmara de Lisboa pelo PSD. A decisão do Tribunal da Relação foi divulgada ao final da manhã desta quinta-feira, confirmando a decisão da primeira instância.

A Relação decidiu sobre um recurso apresentado pelo próprio Seara relativamente a uma decisão do Tribunal Cível de Lisboa que impede a sua candidatura pelo PSD à Câmara de Lisboa. Em causa está a lei de limitação de mandatos, que na interpretação feita pela primeira instância impede Seara, que cumpriu já três mandatos como autarca em Sintra, de se candidatar a Lisboa nas autárquicas de 29 de Setembro.

O autarca confirmou à Renascença que vai recorrer desta decisão. 

Da decisão da Relação ainda cabe recurso para o Tribunal Constitucional, mas nos últimos dias surgiram notícias de que Seara não irá apresentar recurso, sendo nessas circunstâncias substituído pela deputada Teresa Leal Coelho na corrida à autarquia lisboeta.

A 18 de Março, o Tribunal Cível de Lisboa, na sequência de uma providência cautelar interposta pelo Movimento Revolução Branca (MRB), declarou que Fernando Seara está impedido de se candidatar à Câmara de Lisboa para "evitar a perpetuação de cargos" políticos e que um autarca possa andar "a saltar de câmara em câmara".

CÓDIGO DE PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO

Ministério da Justiça:

CÓDIGO DE PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO MAIS SIMPLES E TRANSPARENTE PARA APROXIMAR ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DOS CIDADÃOS

STJ O senhor que se segue

Visão | Quinta, 20 Junho 2013
No dia 14 de julho, os conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça vão escolher um novo presidente que substituirá Noronha do Nascimento. Quem são os candidatos e como será o processo de escolha? 
1. Noronha sai
Luís Noronha do Nascimento antecipou-se ao limite de idade de 70 anos para o cargo de presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), que atingirá em dezembro, e saiu de cena já no passado dia 12. Após seis anos no cargo, sentiu, como confidenciou, em maio, numa entrevista ao Expresso, «uma necessidade psicológica muito grande» de se libertar e decidiu que chegou a hora de aprender a podar árvores. 
2. Corrida à sucessão
Fala-se de cinco candidatos à sucessão de Noronha. Mas só dois o assumiram até ao fecho desta edição: os juizes conselheiros Orlando Afonso, tido como candidato da continuidade, e Joaquim Pereira da Silva, atual vice-presidente do STJ. Além destes, segundo noticiou o Expresso, poderão surgir outros três: Santos Cabral, antigo diretor da PJ, Pires da Rosa, atual presidente da secção cível do STJ e Henriques Gaspar, outro vice-presidente do Supremo. 
3. Carta fora do baralho?
António Henriques Gaspar, vice do STJ que substitui interinamente Noronha do Nascimento, é tido como uma espécie de elemento estranho na judicatura.
Dos candidatos, assumidos ou não, é o único da carreira de procurador do Ministério Público.
O seu currículo notável inclui, entre outras, passagens pelo Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República, pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e pelo Comité Contra a Tortura, da ONU. 
4. Como é escolhido?
O presidente é eleito por voto secreto dos seus pares – os juizes conselheiros do STJ, o vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura e os procuradores do Supremo. O mandato de cinco anos não pode ser renovado. Se houver mais do que dois candidatos, ganha quem obtiver maioria absoluta. Caso tal não ocorra, os dois mais votados disputarão, no mesmo dia, uma segunda volta. 
5 O ‘pai’ de todos os juizes
O presidente é a 4.ª figura do Estado, a seguir ao Presidente da República, à presidente do Parlamento e ao primeiro-ministro. Encabeça o único órgão que pode julgar o Chefe de Estado e o de Governo por crimes praticados no exercício de funções. É o juiz supremo da República e, por inerência, preside, também, ao Conselho Superior da Magistratura.

JACKPOT DOS SUBSÍDIOS

Na Visão:
O Tribunal Constitucional impediu que os funcionários públicos e os pensionistas ficassem sem subsídio de férias em 2013, mas não determinou a data em que deveriam ser pagos. Agora, para cumprir as previsões orçamentais, o Governo quer adiar o pagamento para o final do ano. E, subitamente, o pior verão dos últimos 200 anos, como promete a meteorologia, ficou com menos cor ainda. Exceto para alguns «sortudos»...POR SÓNIA SAPAGE 
No ano em que a recessão foi agravada pelas más «condições meteorológicas», como disse o ministro das Finanças, o verão tarda em chegar. E com ele tardam também os subsídios de férias dos funcionários públicos e pensionistas, cujo pagamento integral o Governo quer adiar para novembro e dezembro. Com as novas regras à espera de promulgação, algumas autarquias e empresas públicas já prometeram abrir os cordões à bolsa, em tempo de veraneio, mas os descontos fiscais a aplicar poderão ser incorretamente calculados.
Retrato de uma decisão (e suas consequências) que, para o social-democrata Marcelo Rebelo de Sousa, é «um desastre político sem nome».
Dois meses e meio depois de o tribunal competente ter emitido um acórdão determinando a inconstitucionalidade da eliminação do subsídio de férias para trabalhadores do Estado e reformados, ainda não está em vigor a nova lei que determina o seu pagamento. Pelas regras antigas (as que vigoram), estas subvenções devem ser pagas em junho e julho, mas o Governo emitiu uma nota que enfureceu sindicatos, oposição e funcionários, dando indicações aos serviços públicos para reterem o dinheiro.
As novas regras, que aguardam o aval de Belém, determinam que só sejam pagos em junho (funcionários públicos) e julho (pensionistas) os subsídios de quem recebe até 600 euros. Os que ganham entre 600 e 1100 euros receberão em duas tranches: uma em junho ou julho e outra em novembro ou dezembro, consoante se trate de trabalhadores do Estado ou de reformados da CGA e da Segurança Social. A partir dos 1100 euros, o subsídio só'será pago, na íntegra, em novembro - aos aposentados serão entregues 10% em julho e 90% no final do ano.
Na última segunda-feira, 17, o líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, propôs que todos os subsídios de férias fossem pagos até 15 de julho. «Não há nenhuma razão para que isso não seja feito», afirmou.
Um terço das autarquias paga jáNa verdade, e de acordo com um levantamento feito pela VISÃO, aproximadamente um terço das autarquias portuguesas (e ainda o Governo Regional dos Açores, a TAP e a Lusa), gozando de autonomia conferida lei, até já pagaram ou vão pagar, durante os meses de junho e julho, a totalidade dos subsídios de férias aos seus funcionários. Esta solução acabou por gerar dificuldades relacionadas com a determinação das taxas de IRS a aplicar, o que motivou várias notícias dando conta de que quem já recebeu as subvenções, terá o salário encurtado em julho.
Só a 7 de junho é que o Parlamento votou, favoravelmente, o diploma, adiando a reposição dos subsídios do verão para o final de 2013. E apenas na sexta-feira, dia 14, foi aprovada, por unanimidade, em comissão parlamentar a redação final da proposta de lei sobre o subsídio de férias. O texto deverá ter seguido, entretanto, para Belém, a fim de ser promulgado por Cavaco Silva.
Ao contrário do que tem sido dito, e ao que a VISÃO apurou, o Presidente tem agora 20 dias, e não dez, para decidir, o que pode atirar a publicação da lei em Diário da República para julho. «Sendo uma Lei da Assembleia da República o Presidente terá 20 dias para decidir», confirmou a Casa Civil.
Até lá, o Governo, que deu indicações para que os subsídios não fossem pagos, estará «fora da lei», acusa a esquerda. «É uma decisão de quem se habituou a incumprir a Constituição da República», lamentou José Abraão, vice-secretário-geral da Frente Sindical da Administração Pública (Fesap). O Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol) emitiu um comunicado ainda mais duro, ameaçando pedir «juros de mora sobre os capitais em dívida», se houver atrasos no pagamento do subsídio de férias dos polícias.
Na ironia de José Adelino Maltez, politólogo, este é «um problema que não é de tática, mas de manha, típica daquilo a que se chama Governo de espertos, que coloca o verbo ao serviço da verba» e que «reduz a lei à mera ordem de um cretino, típico do administrativamente hierarquista, onde no vértice está o fmanceirismo». O professor universitário vai mais longe: «Traduz o início de uma fragmentação do sentido de serviço público e torna-se um perigo, porque pode justificar novas medidas no sentido da centralização, aproveitando o pretexto.»
Ponderado, o ex-ministro das Finanças Bagão Félix justifica que «o Governo apenas corre o risco de estar fora da lei se a lei aprovada no Parlamento não for promulgada e publicada até finais de junho (isto quanto a funcionários; quanto a reformados, o mês de pagamento é o de julho)».
Para este conselheiro de Paulo Portas - e também de Estado - a medida que o Governo quer concretizar de adiar o pagamento do subsídio de férias para o fim do outono é errada. «A medida é errada por várias razões: 1) cria um problema político desnecessário, até tendo em conta o facto de o Governo ter anunciado que tinha os recursos financeiros assegurados até ao fim do ano; 2) evidencia uma não disfarçada reação negativa ao acórdão do Tribunal Constitucional, ao repor o subsídio, mas não o seu timing (outra forma de se ver a questão da equidade face ao setor privado); 3) é mais uma pedra desnecessária na engrenagem da relação com os parceiros sociais; 4) é um erro macroeconómico, pois entregando mais tarde o dinheiro às famílias está a não aproveitar para estimular o consumo que, por sua vez, tem consequências no volume de emprego.» 
Elefante numa loja de porcelanasSobre as razões invocadas para a alteração das regras precisamente no mês em que deviam começar a ser pagos os subsídios (o secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento, disse que, se os pagamentos tivessem lugar agora, «estaríamos a pôr em risco os limites trimestrais do défice»), Bagão explica: «O pagamento em junho, julho ou dezembro é indiferente, do ponto de vista da execução orçamental em 31 de dezembro. Pode não o ser, no entanto, em termos de gestão de tesouraria, embora recorde que o Governo disse que tinha todas as necessidades de tesouraria para este ano já asseguradas.»
No último debate quinzenal, no Parlamento, Pedro Passos Coelho foi «apertado» pela esquerda e clarificou: «Não é uma questão de saber se existe dinheiro na caixa ou não existe dinheiro na caixa. É uma questão de saber se o Governo consegue cumprir uma previsão que tem.»
A justificação caiu mal na oposição, mas também no interior do CDS e do PSD. António Capucho classificou a decisão da equipa de Passos Coelho de «inexplicável». Manuela Ferreira Leite definiu-a como «mais uma agressão aos funcionários públicos».
Pires de Lima criticou Vítor Gaspar e sugeriu-lhe «que se pagasse o subsídio de férias aos funcionários públicos, nos meses em que eles vão de férias, ou seja, junho, julho e agosto». E Marques Mendes disse que o Governo «gere isto como um elefante numa loja de porcelanas». Que é como quem diz: aos pontapés.

'O caso' do provedor de Justiça

Há um pouco mais de quatro anos, falava nesta coluna de uma «democracia doente». Havia, e hoje ainda há mais, razões para pensar ser esse o seu estado, mas. no caso, referia-me sobretudo ao espetáculo triste do Parlamento não conseguir eleger um provedor de Justiça. E a última proposta do PS, que o PSD inviabilizara (a eleição exige uma maioria de dois terços), fora a de Jorge Miranda, espírito independente, reputado professor de Direito e um dos «pais» da Constituição, pelo PPD (agora PSD). A situação atingiu foros de escândalo, até os dois partidos (o Governo, monocolor, era então PS) conseguirem encontrar uma bóia de salvação: Alfredo José de Sousa (AJS). conselheiro jubilado, presidente do Tribunal de Contas (TC), com geral aprovação, entre 1995 e 2005. Que foi eleito por 197 deputados, só com quatro votos contra.
Ao longo do seu mandato de quatro anos, que agora chega ao fim, não vi contestada por ninguém, antes vi aplaudida, a forma como o exerceu. Os seus relatórios anuais foram elogiados e aprovados por unanimidade. O provedor pode ser reeleito uma vez, fazendo um segundo mandato. E foi o que sucedeu com os dois únicos antecessores de AJS eleitos após a lei o permitir: Menéres Pimentel e Nascimento Rodrigues.
Ambos militantes e antigos altos dirigentes do PSD (o primeiro até presidente do grupo parlamentar e da Comissão Política), além de ministros de governos do partido (como o anterior, Mário Raposo).
Neste contexto, tinha-se como certo que PSD e PS proporiam a reeleição de AJS e não voltaria a acontecer o mesmo - ou, dadas as circunstâncias, Dior - do que em 2009. Mas, pelos vistos, para aí vamos.
Porque, após uma sua entrevista à RDP o PSD veio declarar que não apoiaria tal reeleição, porque o provedor tinha deixado de ser «isento e imparcial» no exercício do cargo (nessa entrevista, em resposta a uma pergunta. AJS admitiu a possibilidade de queda do Governo, mas que só o CDS poderia provocar, nesse caso considerando melhor que as legislativas coincidissem com as autárquicas). Mais, o PSD propunha-se falar com o PS para a «a apresentação de uma candidatura de uma personalidade que possa ser compatível em termos de currículo e de perfil» com tal exercício.
ORA, QUALQUER QUE TENHA SIDO a resposta de AJS ao que lhe foi perguntado, e a nossa opinião sobre ela, não altera um milímetro ao seu perfil e currículo de décadas, como magistrado e nas altas funções que ocupou. Não lhe dá, no passado ou no presente, nenhuma posição e/ou intervenção política e partidária, como a dos seus antecessores que foram importantes dirigentes do PSD. Além disso, que ato concreto de falta de independência, isenção ou imparcialidade o PSD alguma vez lhe imputou, como provedor ou presidente do TC, ao longo de 14 anos? E, por acaso, não será legítimo o provedor fazer-se eco das preocupações e dos protestos legítimos que lhe chegam dos cidadãos? E, por acaso, não pertence ele ao Conselho de Estado onde pode, e deve, dar opiniões políticas?
Não houve o mínimo desvio, por parte de AJS, do cumprimento dos seus deveres e do exercício dos seus direitos. O PSD quererá é impedir uma liberdade, ou castigar um (na sua ótica) delito de opinião. Uma opinião que pode não lhe agradar, mas de que não é legítimo tirar as consequências que tirou.
Aliás, isso faz tão pouco sentido que não falta quem pense tratar-se de um mero pretexto: a verdadeira razão da sua atitude residiria no facto de, ainda e sempre nos termos da Constituição e da lei, Alfredo José de Sousa ter requerido a fiscalização abstrata sucessiva da constitucionalídade de algumas normas do Orçamento do Estado de 2013. O que, claro, também não é razão nenhuma - bem pelo contrário... 
ASSIM, PREVÊ-SE E TEME-SE o pior. A solução ainda possível será o PSD reconsiderar, num ato nem digo de humildade mas de bom senso, de coerência com os valores e interesses em jogo e não de insistência numa posição a essa luz indefensável; em defesa da democracia, da política e das instituições e não da intangibilidade de um partido ou de um Governo. E além do que vale em si mesmo, este «caso» do provedor tem e terá também um significado simbólico, podendo lesar ainda mais a imagem de um Parlamento que a sua presidente, Assunção Esteves, se tem empenhado em (re)prestigiar.

Fernando Seara: Decisão da Relação

O Tribunal da Relação de Lisboa deverá decidir hoje se o autarca de Sintra pode concorrer à Câmara de Lisboa apesar do limite de mandatos.
Correio da Manhã, 20 Junho 2013

GNR: BT e Brigada Fiscal de volta

O ministro da Administração Interna anunciou ontem que a Brigada de Trânsito (BT) e a Brigada Fiscal da GNR vão ser reativadas ainda este ano no âmbito das alterações à Lei Orgânica daquela força de segurança. "A avaliação que foi feita da necessidade de se retomar estas duas estruturas na GNR é indiscutível em relação aos resultados que pretendemos alcançar", disse Miguel Macedo.
Correio da Manhã, 20 Junho 2013