segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Auditoria da PGR é sinal “fortíssimo” de combate à violação do segredo, diz ministra da Justiça

07/01/2013 - 14:20

Paula Teixeira da Cruz diz que 2013 pode ser o ano da “alteração do regime do segredo de justiça”
Questionada sobre a morosidade das investigações nos processos, a ministra lembrou que já entregou no Parlamento uma alteração intercalar do processo penal para diminuir esses prazos NUNO FERREIRA SANTOS
A ministra da Justiça saudou nesta segunda-feira a decisão da procuradora-geral da República de realizar uma auditoria aos casos de violação de segredo de Justiça, considerando ser um “sinal fortíssimo de que há vontade de pôr fim” àquela “disfunção” do sistema.
Falando aos jornalistas no final da cerimónia que assinalou o início da formação de 80 novos magistrados no Centro de Estudos Judiciários (CEJ), Paula Teixeira da Cruz referiu ter ficado “muito contente” com a iniciativa da procuradora-geral, Joana Marques Vidal, admitindo que 2013 poderá ser o “ano da alteração do regime do segredo de Justiça”.
“Já temos uma indicação, por parte da PGR, que é, de facto, um início de ano de combate à violação do segredo de Justiça”, sublinhou a ministra. O resultado da auditoria ordenada pela procuradora-geral “ajudará” a revisitar e a melhorar os mecanismos de um regime que, na opinião de Paula Teixeira da Cruz, não tem funcionado bem em termos práticos.
Questionada sobre a excessiva morosidade das investigações, que prolongam o segredo de justiça no tempo além do que seria razoável, a ministra lembrou que já apresentou na Assembleia da República uma reforma intercalar do processo penal que “permitirá abreviar esses prazos, pela diminuição das diligências dilatórias”.
Joana Marques Vidal recusou-se a adiantar mais pormenores sobre a auditoria, depois de na última sexta-feira ter ordenado a realização, com carácter urgente, de uma auditoria aos inquéritos-crime que, nos últimos dois anos, foram alvo de violação de segredo de Justiça.
A Procuradoria justificou a iniciativa com a urgência em adoptar medidas e procedimentos práticos que possam contribuir para a “erradicação ou para a diminuição significativa de tais ocorrências” e, ao mesmo tempo, possibilitar uma “mais fácil sinalização, posterior, da sua autoria ou do momento, fase ou local, em que tais crimes venham a ocorrer.
Presidente do Supremo desvaloriza pressão sobre o TC
No final da cerimónia no Centro de Estudos Judiciários, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, desdramatizou as alegadas pressões sobre o Tribunal Constitucional na questão da fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2013, observando que os “juízes estão todos preparados para lidar com pressões desse género”.
Noronha Nascimento frisou que todas as leis “têm um fundo político”, mas reconheceu que é o “Tribunal Constitucional que lida com o mais político das normas de direito, que é o Direito Constitucional”, que “estrutura politicamente o Estado”.
A cerimónia contou ainda com a intervenção do director do CEJ, Barbas Homem, tendo na sessão estado ainda presentes a procuradora distrital de Lisboa, Francisca Van Dunem, o presidente do Tribunal da Relação, Vaz das Neves, e o director da Polícia Judiciária, Almeida Rodrigues, entre outras figuras ligadas à Justiça.

Provedor de Justiça pede fiscalização sucessiva do OE ao Tribunal Constitucional

Público GRAÇA BARBOSA RIBEIRO 

07/01/2013 - 14:37
Os fundamentos do pedido serão anunciados até ao fim da tarde, altura em que a Associação de Juízes reúne com a Procuradora-Geral da República, para pedir intervenção semelhante.
O provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa, vai enviar para o Tribunal Constitucional um pedido de fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado de 2013, numa iniciativa a que se referiu, nesta segunda-feira, como “uma obrigação”.
“Não se pode deixar de cumprir uma obrigação”, comentou o provedor, quando questionado pelo Expresso sobre as consequências orçamentais de uma eventual declaração de inconstitucionalidade.
Segundo o semanário, que noticia a intervenção do provedor, José Alfredo Sousa afirmou que os fundamentos do seu pedido são os mesmos do Presidente da República. Isto significa que será questionada a constitucionalidade da suspensão dos subsídios de férias dos funcionários públicos e dos reformados (artigos 29.º e 77.º) e a contribuição extraordinária de solidariedade (artigo 78.º).
Contactados pelo PÚBLICO, os serviços de imprensa da Provedoria de Justiça adiantaram que o teor do pedido ainda não está definido e que este será revelado até ao fim da tarde desta segunda-feira.
Há um ano, o provedor manifestou-se igualmente preocupado com as normas da Lei do Orçamento do Estado para 2012 e com a existência de "uma efectiva crise do valor da Constituição, num momento percepcionado pelos cidadãos como de grande afectação dos seus direitos". Não chegou, no entanto, a avançar com o pedido de fiscalização sucessiva. Entre outras razões, apontou, por na altura já se encontrar pendente, no Tribunal Constitucional, um processo de fiscalização com idêntico propósito.
A Associação Sindical de Juízes(ASJ) vai também nesta segunda-feira apresentar à Procuradora-Geral da República “os fundamentos que, na sua perspectiva, justificariam” que aquela pedisse a fiscalização sucessiva. “Como a associação não tem legitimidade para tal, vamos pedir à senhora Procuradora que analise as nossas razões e que, se entender que elas são válidas, tome as medidas que considerar ajustadas”, disse ao PÚBLICO o presidente da ASJ, Mouraz Lopes.
Em declarações ao PÚBLICO, o juiz afirmou que só ao fim da tarde, depois da reunião com a PGR, Joana Marques Vidal, poderá adiantar quais as normas que a associação questiona. Segundo o Diário Económico, entre elas estão não só as referentes à suspensão dos subsídios de férias a funcionários públicos e pensionistas, como pediram o Presidente da República e o PS, mas também normas do pacote fiscal.

A judicialização da política: duas abordagens


Cidadania activa

Paulo Trigo Pereira

Numa democracia liberal como a nossa, compete ao Governo elaborar o Orçamento, à Assembleia da República modificá-lo, e aprová-lo, e ao Tribunal Constitucional verificar se a Lei orçamental está conforme à Constituição.

Aquando do OE2012, houve apoiantes da maioria governamental que consideraram o Acórdão do Tribunal Constitucional (TC) um obstáculo à acção executiva do Governo, ou seja, uma judicialização da política (I). Defender que, em situação de emergência, tudo deve ser permitido ao executivo, é não compreender a natureza do estado democrático de Direito e que a Constituição é, nas suas imperfeições, um alicerce da coesão social nacional. Foi na base dessa Constituição que um pequeno grupo elaborou um manifesto contra esse OE (PÚBLICO de 04/11/11) e uma petição oportunamente entregue à Assembleia da República. O acórdão foi por isso por nós considerado "uma vitória da cidadania e do Estado de Direito" (PÚBLICO de 07/07/12).

Este OE2013 está a ser sujeito a muitos mais pedidos de avaliação de inconstitucionalidade. Desde logo do Presidente da República, de um número mais considerável de deputados do Partido Socialista, incluindo o seu secretário-geral (ao contrário do OE2012 em que o pedido foi à revelia da direcção do partido), do PCP e do BE. Até parece que o alcance (impacto orçamental) das normas eventualmente inconstitucionais em 2013 é maior do que o de 2012. Tal não é, contudo, o caso. As normas cuja eventual inconstitucionalidade maior impacto terão no OE2013 são as de suspensão de um subsídio de férias aos trabalhadores do sector público (art.º 29) e de 90% do subsídio de aposentados e reformados (art.º 77) com remunerações ou pensões superior a 1100 euros. A gravíssima inconstitucionalidade do OE2012 foi excluir totalmente do contributo para a consolidação orçamental todos os trabalhadores do privado. Tal não sucede no OE 2013, pois a subida generalizada de impostos força os trabalhadores do privado a contribuir para os necessários sacrifícios.

A consistência doutrinária do TC poderá pois aceitar os artigos 29.º e 77.º. Deverá ser aceite alguma quebra salarial limitada em funcionários e pensionistas, a menos que se subscreva a doutrina da impossibilidade do retrocesso social limitado. O TC reconheceu a desigualdade entre cidadãos que auferem remunerações através do OE e dos que não auferem e que isso legitima algum tratamento diferenciado. Sejamos claros, o OE2013 é mais justo do que o OE2012 na repartição dos sacrifícios. Contém, porém, normas de menor alcance orçamental, mas igualmente importantes, que são inconstitucionais. A mais óbvia é a contribuição extraordinária de solidariedade dos pensionistas (art 78.º). Um princípio básico de equidade horizontal é que pessoas em situação semelhante devem ter tratamento fiscal semelhante. Este é um dos corolários de um imposto sobre os rendimentos progressivo. Ora um pensionista de elevados rendimentos está, com o art.º 78, a ser mais tributado do que um trabalhador no activo com os mesmos rendimentos. A equidade, que só pode ser apreciada qualitativamente, sugere que a existir discriminação entre pensionistas e trabalhadores do privado com iguais rendimentos, esta só pode ser positiva e não negativa (pelo facto de uma parte, não a totalidade (!), da sua pensão resultar de uma capitalização dos seus rendimentos passados). Finalmente, existe um grande equívoco em relação ao significado do conceito de "progressividade" no IRS. Para o economista, ele é claro e preciso: a taxa média do imposto cresce com o nível de rendimento.

Existirem componentes de tributação dos rendimentos que são proporcionais (as taxas liberatórias sobre rendimentos de capitais, ou a nova sobretaxa de 3,5% (art.º 187), só viola a progressividade em casos extremos (indivíduos só com rendimentos de capitais), mas em termos médios gerais não viola. O IRS tem que ser analisado na sua globalidade em termos de taxa média anual de tributação.

Discordo pois de António Carlos Santos (PÚBLICO de 28/12/12) e dos que se baseiam no argumento de proporcionalidade da sobretaxa, mas já concordo quando diz que se trata de um novo imposto autónomo. Esse artigo necessita de ser reescrito e melhor enquadrado com o IRS.

A questão das inconstitucionalidades do OE2013 é relevante, mas não toca nos quatro problemas fundamentais dos próximos anos: como relançar o crescimento económico? Como renegociar as condições da dívida pública? Como reformar de forma justa o Estado de bem-estar e prepará-lo para o baixo crescimento económico estrutural de longo prazo e o envelhecimento da população? Como relançar a natalidade? O Governo não tem resposta credível para estes problemas, e a as oposições também não. Os actores políticos (Governo, oposições e Presidente) devem assumir as suas responsabilidades e ter respostas credíveis para os problemas do país. Não compete, nem vai ser o Tribunal Constitucional a dar essas soluções. Canalizar a luta política para o TC é outra forma de judicialização da política (II).
Público, 6-1-2013

Marques Vidal recebe a Associação Sindical dos Juizes, que alega que a sobretaxa de 3,5% acumulada ao corte de subsídios põe em causa a proporcionalidade.



Marques Vidal recebe a Associação Sindical dos Juizes, que alega que a sobretaxa de 3,5% acumulada ao corte de subsídios põe em causa a proporcionalidade.

Inês David Bastos

A Associação Sindical dos Juizes Portugueses (ASJP) vai hoje pedir à Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, que avance para o Tribunal Constitucional com um pedido de fiscalização sucessiva a algumas normas do Orçamento do Estado para 2013, alegando, por exemplo, que a sobretaxa de 3,5% em sede de IRS acumulada com corte de vencimentos pela suspensão dos subsídios viola o princípio da proporcionalidade e da progressividade.

A reunião está marcada para as 17 horas e a concretizar-se o pedido será a quarta argumentação jurídica que os juizes do Palácio Ratton terão para analisar, à qual se deve juntar durante a semana a do PS/Açores. Os juizes, liderados por Mouraz Lopes, querem ver fiscalizados não só os artigos referentes à suspensão dos subsídios de férias a funcionários públicos e pensionistas, como pediram o Presidente da República e o PS, mas também normas do pacote fiscal. Enquanto sindicato não têm poder para confrontar o TC, pelo que o pedido tem sempre que ser feito através do Ministério Público.

Os juizes juntam-se assim também ao PCP, BE e PEV, que hoje entregam no TC o seu pedido de fiscalização sucessiva, em que vão mais longe do que os três artigos suscitados pelo PS e pelo Presidente da República - que suscitaram dúvidas sobre a suspensão dos subsídios e Contribuição Extraordinária de Solidariedade. A esquerda inclui também a parte fiscal, nomeadamente os novos escalões de IRS e a sobretaxa de 3,5%, alegando que pode estar em causa o princípio.da proporcionalidade.

O PS/Açores também vai entregar esta semana um pedido de fiscalização, por "dúvidas" que se prendem com questões com implicação directa no arquipélago como, por exemplo, a imposição de que a receita da sobretaxa de IRS criada "não fique nos cofres da região".

Governo dramatiza eventual chumbo do TC ao OE/13

A pressão sobre o TC já se começa a fazer sentir. O Governo, pela voz do secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento, veio dizer no fim-de-semana que um eventual chumbo ao OE/13 pode deixar Portugal sem financiamento. Em entrevista à Renascença, Morais Sarmento avisou que um chumbo constitucional pode significar "o incumprimento do programa a que estamos obrigados e cujo cumprimento tem garantido o nosso financiamento". Calculando em 1.300 milhões de euros o valor em causa nas normas que suscitaram dúvidas a Cavaco Silva, Morais Sarmento recusou "elaborar sobre hipóteses ou cenários de outra natureza" que não seja a validação constitucional.

Em entrevista ao 'Expresso', no sábado, o Presidente da República não teceu grandes comentários ao pedido de fiscalização que fez, mas lembrou por várias vezes que "a Constituição não está suspensa", garantindo que não tem por hábito "atribuir as culpas à Constituição" para justificar entraves ao desenvolvimento.

Sem se referir ao pedido de fiscalização sobre o OE/13, a directora do FMI, Christine Lagarde, considerou, também ao 'Expresso', que foi uma "infelicidade" não se ter "previsto a inconstitucionalidade de algumas medidas propostas no ano passado".

ÂMBITO DOS PEDIDOS DE FISCALIZAÇÃO

Cavaco Silva Presidente da República

Cavaco pediu a avaliação dos artigos 29°, 77° e 78° do Orçamento. Em causa estarão dúvidas legais sobre a suspensão do subsídio de férias da Função Pública e dos reformados e a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES).

António José Seguro Secretário-Geral do PS

O PS, num pedido espoletado por Alberto Costa e assinado por Seguro, pede a fiscalização sucessiva das mesmas normas que Cavaco: suspensão dos subsídios e contribuição extraordinária. E diz que foram violados os princípios da proporcionalidade e confiança.

Bernardino Soares Líder parlamentar do PCP

Os comunistas e os bloquistas entregam hoje um pedido conjunto, onde, além das dúvidas suscitadas por Cavaco, vai mais além e deixam reservas legais sobre o pacote fiscal, nomeadamente a sobretaxa e a nova tabela de IRS.

Juiz e presidente da ASJP

A Associação Sindical dos Juizes Portugueses (ASJP) vai solicitar à PGR que avance com um pedido. Os magistrados têm dúvidas constitucionais sobre suspensão do subsídio e acumulação da sobretaxa de 3,5% com corte dos vencimentos.

Berto Messias

Líder parlamentar do PS/Açores

PS/Açores avança com um pedido de fiscalização onde coloca dúvidas sobre questões relacionadas com o arquipélago e que, dizem, põem em causa a autonomia. Nomeadamente o pagamento de serviços no SNS e a retenção no continente da sobretaxa de IRS.

Reforma da Organização Judiciária – O mapa Judiciário


Sexta-feira 25 de Janeiro no Auditório da CCDR – Faro.

A catástrofe


Despudoradamente, o Governo está a tentar condicionar o Tribunal Constitucional na apreciação da Lei do Orçamento de 2013, dizendo que esta era a única solução possível e que o seu chumbo terá efeitos catastróficos para o país. Não acreditando nos seus argumentos jurídicos, o Governo passa à ameaça. Sabe, pois, que quaisquer consequências de uma declaração de inconstitucionalidade apenas a si serão imputáveis, por ter ignorado a decisão anterior do TC e todos os avisos feitos pelos constitucionalistas, e teimar em não ser justo e equitativo na repartição dos sacrifícios. Essa é que deveria ser a única via a tomar, mas, inexplicavelmente ou não, sempre foi ignorada por este Governo, que tem apresentado diferentes propostas, cada uma delas “única solução possível”.
Catástrofe será o TC deixar-se condicionar por quaisquer pressões e ater-se a quaisquer argumentos que não os que resultam da própria Constituição. Será, então, a instalação da ditadura financeira controlada externamente, que se sobreporá à lei fundamental do país e deixará indefesos os seus cidadãos, vistos apenas como formigas contribuidoras. Perderemos a réstia de soberania a que ainda nos agarramos.
Rui Cardoso
Correio da Manhã, 7 de Janeiro de 2013

Passos Coelho nega “ciclo vicioso” na economia e pressões ao Tribunal Constitucional irritam CDS. Ameaças ao Constitucional incomodam o CDS-PP


Orçamento. No partido de Paulo Portas as palavras do secretário de Estado do Orçamento foram consideradas contraproducentes. “Não é preciso carregar nas tintas”, avisa Pires de Lima
JOÃO PEDRO HENRIQUES
Caíram mal no CDS-PP as declarações do secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento, sobre a eventualidade de o Tribunal Constitucional chumbar o OE 2013 – e que constituíram uma objetiva pressão sobre os juizes, aliás já criticada na oposição. Em declarações ao DN, diversos dirigentes centristas assumiram o incómodo, considerando as declarações do governante como “contraproducentes” e até em contradição com a estratégia definida pela cúpula do Executivo, aguarda a decisão em silêncio. Em causa está o facto de Morais Sarmento ter dito à Rádio Renascença que “a consequência para o país” de um chumbo do OE 2013 pelos juizes do Constitucional “pode ser o incumprimento do programa a que estamos obrigados e cujo cumprimento tem garantido o nosso financiamento” António Pires de Lima, presidente da mesa do Conselho Nacional do CDS-PP, assumiu ao DN, embora em modo suave, um juízo crítico das declarações do secretário de Estado. “Não é preciso carregar nas tintas. Aguardemos calmamente.”
No entender do dirigente centrista, “para já não se conhece a decisão do TC” e portanto tudo o que se deve fazer é “aguardar com tranquilidade”. “O PSD e o CDS aceitam com naturalidade a decisão do Presidente da República [de suscitar a fiscalização preventiva da constitucionalidade do OE”, acrescentou, dizendo ainda não ver da parte de Cavaco Silva “nenhuma vontade de criar uma crise política”. E, além do mais, o decreto seria sempre sujeito ao escrutínio do TC – se não fosse pelo Presidente seria pelos deputados. “O Governo tem de aceitar a decisão do Presidente”, reforçou o dirigente centrista.
No CDS as declarações deste secretário de Estado de Vítor Gaspar são vistas como própria de um técnico pouco dado a raciocínios políticos. Ou seja, alguém que está verdadeiramente preocupado com as consequências da decisão do TC – ignorando ‘subtilezas’ da política como o princípio da separação de poderes, que deve inibir os políticos de comentar decisões judiciais, sobretudo quando estas estão em processo de ser tomadas. O próprio Pires de Lima assume, em declarações ao DN, que um “chumbo” radical do OE 2013 no TC terá “sérias consequências políticas e financeiras”.
Governo envia pareceres ao TC Na entrevista à RR, Luís Morais Sarmento deu ainda outra novidade. Desta vez, ao contrário do que aconteceu no OE 2012, “o Governo apresentará os seus argumentos ao Tribunal Constitucional, quando for caso disso”, em defesa do decreto orçamental. É um direito de contraditório que lhe assiste masque normalmente o Executivo não usa José Sócrates fê-lo uma vez, em 2006, em defesa da Lei de Finanças Locais – enviando pareceres de José Casalta Nabais, Manuel Porto, Lobo Xavier, Eduardo Paz ferreira e Saldanha Sanches efoi acusado de estar a pressionar ilegitimamente os juizes do Tribunal Constitucional.
Verba sob análise do TC passa hoje de dois mil milhões para o dobro
Requerimento Deputados comunistas, bloquistas e ecologistas entregam pedido de fiscalização do OE 2013 hoje no Tribunal Constitucional
O âmbito da análise do Tribunal Constitucional (TC) ao OE 2013 vai ser hoje substancialmente alargado. Isto por via da iniciativa de deputados de PCP, BE e PEV, que entregarão no Palácio Ratton mais um pedido de fiscalização sucessiva da constitucionalidade do decreto – o decreto, depois dos pedidos já enviados pelo Presidente da República e por deputados do PS.
TC também analisa IRS
Às matérias já incluídas nos pedidos do PR e do PS – suspensão do pagamento do subsídio de férias dos funcionários públicos e dos pensionistas e aumento da carga fiscal sobre os pensionistas -, comunistas, bloquistas e ‘Verdes’ adicionarão outras, como os novos escalões do IRS e a nova sobretaxa de 3,5% criada também no âmbito deste imposto. Com esta iniciativa, estará em causa na análise o TC uma verba que rondará, no total, os 4100 milhões de euros: 1500 milhões quanto à suspensão do pagamento do subsídio de férias dos funcionários públicos e dos pensionistas; 421 milhões na “contribuição extraordinária” imposta aos reformistas (que poderá ir até aos 40%, no caso das pensões acima de 7400 milhões de euros); e por fim 2180 milhões nas normas relativas ao IRS. J.P.H.
Diário Notícias, 7 Janeiro 2013

Portugal tem a carga tributária mais elevada da Europa


António Costa e Paula Cravina de Sousa
Os trabalhadores e pensionistas portugueses terão este ano a carga fiscal mais elevada quando comparada com os cinco países mais ricos da Europa. E o fosso entre os contribuintes é ainda mais visível nos reformados, de acordo com um estudo da consultora da KPMG a que o Diário Económico teve acesso.
De acordo com as simulações, a discrepância é particularmente notória nos pensionistas com rendimentos acima de 300 mil euros por ano, com a Alemanha a surgir como o país mais atractivo, com uma taxa de tributação efectiva de 24,4% para um casal de pensionistas sem filhos com rendimentos acima de 300 mil euros. Em Portugal a taxa será de 64,2% para o mesmo exemplo, ou seja, quase três vezes mais. Se cá, um casal de reformados com 300 mil euros de pensão bruta anual fica, depois de impostos e da Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), com 107.471 euros de rendimento disponível, na Alemanha ficará com 226.930 euro.
Logo a seguir a Portugal, surge Espanha com a carga tributária mais elevada, mas ainda com uma taxa de 44,9% (ver infografia). No entanto, para o tax partner da KPMG, Luís Magalhães, estas diferenças não deverão prejudicar a atractividade de Portugal: “A aplicação da CES às pensões de reforma não afecta as pessoas singulares que tenham transferido (ou venham a transferir) a respectiva residência para Portugal e aufiram pensões de reforma no país de origem” , explicou.
As contas da KPMG tiveram em conta o IRS, as contribuições pagas pelos trabalhadores para a Segurança Social e a CES paga pelos pensionistas. No IRS foram tidas em conta as deduções pessoais, mas não foram consideradas despesas para efeitos de deduções à colecta. Na comparação europeia foram ainda consideradas as taxas de IRS aplicadas em 2013 (quando não havia informação disponível foram utilizadas as de 2012) e foram tidas em consideração as especificidades de cada regime de tributação.
A principal explicação para o agravamento do caso português é, não só o agravamento do IRS, mas também a CES que será aplicada aos pensionistas com reformas superiores a 1.350 euros e que varia entre os 3,5% e os 10%. As pensões acima de 5.030 euros terão ainda taxas adicionais.
A CES é precisamente uma das dúvidas encontradas pelo Presidente da República no Orçamento do Estado para 2013. Recorde-se que Cavaco Silva enviou na semana passada três normas para serem analisadas pelo Tribunal Constitucional: a CES, a suspensão do subsídio de férias para os funcionários públicos e a suspensão do mesmo subsídio para os pensionistas. Na sua mensagem de final de ano, Cavaco admitiu que “a execução do Orçamento irá traduzir-se numa redução do rendimento dos cidadãos, quer através de um forte aumento de impostos, quer através de uma diminuição das prestações sociais”. O chefe de Estado afirmou ainda que “todos serão afectados, mas alguns mais do que outros, o que suscita fundadas dúvidas sobre a justiça na repartição dos sacrifícios”. Além de Cavaco, a oposição também irá enviar a questão para o TC (ver pág. 6). Os conselheiros de Estado, Vítor Bento e Bagão Félix já tinham alertado para a questão.
De acordo com a KPMG, na comparação nacional entre trabalhadores e pensionistas, os reformados saem prejudicados, sobretudo aqueles com rendimentos mais elevados. Estas contas também foram feitas pelo Governo com a mesma conclusão (ver caixa ao lado). ¦ Pensões altas mais penalizadas que salários Os pensionistas com reformas acima de 5.345 euros mensais serão mais penalizados com a soma dos impostos e dos cortes previstos no Orçamento do Estado para 2013 (OE/13) do que os trabalhadores por conta de outrem com rendimentos semelhantes, de acordo com as contas do Governo. Estes reformados vão dar mais de metade do seu rendimento anual ao Estado. A situação dos pensionistas é “mais favorável que a situação líquida final dos trabalhadores até aos 70 mil euros de rendimento bruto anual”. A partir desse montante – que corresponde a um rendimento mensal de 5.345 euros – o Governo admite que “passa a ser menos favorável” para os pensionistas. Isto acontece pela conjugação de três situações. Em primeiro lugar, porque a partir de rendimentos brutos anuais acima de 70 mil euros, os pensionistas são mais penalizados com a CES do que os trabalhadores no activo com os descontos para a Segurança Social. Em segundo lugar, porque a partir dos 22.500 euros anuais, os pensionistas passam a ser mais penalizados no IRS do que os trabalhadores, por via da dedução específica (montante sobre o qual não recai imposto). Em terceiro lugar, este efeito da dedução específica é anulado a partir dos 70 mil euros e os reformados voltam a pagar menos imposto do que os trabalhadores. Porém, a CES passa a ser superior aos valores que os trabalhadores descontam para a Segurança Social. Conclusão, o resultado conjugado dos dois efeitos leva a que estes pensionistas sejam os mais prejudicados.
D.F. e P.C.S.
PONTOS-CHAVE
A carga fiscal inscrita no OE/13 faz com que os portugueses tenham de suportar a tributação mais elevada quando comparada com os cinco países mais ricos da Europa.
As simulações da consultora KPMG mostram que os pensionistas com rendimentos mais elevados saem mais prejudicados face aos trabalhadores no activo.
A Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) foi uma das normas do OE/13 enviada por Cavaco Silva e pelo PS para análise do Tribunal Constitucional.
Diário Económico, 7 Janeiro 2013

OE 2013: PCP, BE e PEV entregam pedido de fiscalização sucessiva no TC


O PCP, o BE e o PEV entregam esta segunda-feira no Tribunal Constitucional (TC) um pedido de fiscalização sucessiva da constitucionalidade de algumas normas do Orçamento do Estado para 2013.
O requerimento conjunto de comunistas, bloquistas e ecologistas será entregue no Palácio Ratton, sede do TC, às 11:00.
O PCP e o BE estarão representados, respectivamente, pelos deputados António Filipe e Luís Fazenda.
Os deputados do PS Alberto Costa, Vitalino Canas e Isabel Moreira entregaram um pedido de fiscalização sucessiva do Orçamento para 2013 no Tribunal Constitucional, assinado por 50 deputados socialistas.
Diário Digital, 7 Janeiro 2013

domingo, 6 de janeiro de 2013

O inferno dos funcionários públicos



Trabalhadores da Segurança Social, do Fisco, dos tribunais, assistentes sociais e médicos queixam-se de agressões diárias, culpa da crise. O i revela quatro histórias de funcionários públicos ameaçados e perseguidos
Dina R. tocou à campainha e uma mulher de meia-idade, em roupão, convidou-a a entrar. A funcionária judicia! de um tribunal do Norte explicou ao que vinha: uma dívida de 300 euros por pagar ao Ministério Público obrigaria a fazer uma avaliação dos bens que o casal tinha em casa para que, futuramente, caso não liquidassem o montante em falta, fossem penhorados. "A senhora foi simpática e disse-me que não havia nada para pagar, porque tinha pedido apoio jurídico", recorda.
A mulher encaminhou-a para a cozinha da casa. E foi então que apareceu o marido. Seguiram-se insultos, palavrões, murros na mesa. Minutos depois, Dina R. estava com uma caçadeira apontada à cabeça. Suplicou que a deixassem ir embora. "Parece um cliché, mas vi a minha vida inteira passar-me à frente. Tive a certeza que ia morrer por causa de uma quantia absurda de 300 euros."
Nada fazia prever que a manhã daquele dia de Novembro terminasse de forma tão violenta: Dina R. tinha dezenas de diligências em mãos – muitas delas, penhoras da ordem dos milhares de euros: "Nunca imaginei ter uma arma apontada à cabeça e muito menos por causa de 300 euros." Os minutos que se seguiram foram de absoluto desespero. "Supliquei à mulher dele que o fizesse parar e me deixassem ir embora, para ao pé do meu filho. Jurei que não lhes ia penhorar rigorosamente nada."
Assim que conseguiu sair da vivenda, numa zona rural a três quilómetros da sede da comarca, a funcionária do tribunal meteu-se num táxi. Demorou mais de cinco minutos a marcar os nove dígitos do telefone do trabalho. Os colegas chamaram a GNR c o processo-crime ainda está na fase de inquérito. "Sinceramente estava à espera de mais apoio por parte do tribunal. A lei não nos protege, apesar de, ironicamente, estarmos ao serviço da Justiça", conta.
Três meses depois, ainda é difícil driblar o medo: "Sempre que vou fazer uma diligência, e vou quase sempre sozinha, quando toco a uma campainha tenho medo." A insegurança é alimentada todos os dias pela percepção, no terreno, de que os portugueses andam cada vez mais nervosos. "Nota-se uma perda crescente de respeito pelas instituições. Há penhoras em cima de penhoras e as pessoas partem muito mais para o confronto." A culpa, tenta justificar, talvez seja da crise, agravada pela falta de funcionários nos serviços. "Acumulamos processos e mais processos, além das funções de colegas que entretanto foram transferidos. É cada vez mais difícil dar respostas em tempo útil."
PERSEGUIÇÕES O trabalho de Vera S., assistente social, é andar no terreno. Integra uma equipa que faz o levantamento das condições de vida de crianças sinalizadas como estando em risco. É chamada quando todas as tentativas de corrigir as famílias já foram esgotadas e cabe-lhe, muitas vezes, retirar os filhos aos pais. A responsabilidade e o perigo são "enormes", mas mesmo assim é quase sempre destacada para o terreno sozinha. Por conta própria e sem direito a subsídio de risco. Nos últimos quatro anos teve dois processos-crime a correr no tribunal por ameaças e perseguições. Processos pagos do próprio bolso. "Os serviços e o Estado não se responsabilizam caso queiramos apresentar queixa." Um dos casos acabou com a condenação de um homem que a perseguiu semanas a fio. Vera diz que nem se lembra da pena. "Tive de me distanciar do assunto para manter a sanidade mental." Mudou de concelho e de local de trabalho, com medo de represálias, e temeu pela família: "Era um homem com problemas de esquizofrenia e alcoolismo, a quem era preciso tirar a guarda do filho de seis anos." Insatisfeito com a intenção do tribunal, o homem fez-lhe esperas, seguiu-a, investigou-lhe a família e os hábitos. "Sabia tudo sobre mim: onde ia, com quem, a morada dos meus pais."
"Estamos sempre no fio da navalha. O número de solicitações à Segurança Social disparou de forma exponencial, para o dobro, no último ano", queixa-se a assistente social que diz ter a cargo mais de uma centena de processos ao mesmo tempo. "É evidente que as instituições não conseguem dar respostas adequadas e em tempo útil, o que só reforça a irritação dos utentes."
MURROS E PONTAPÉS Há quase um ano, Luís C, funcionário judicial, foi espancado dentro do tribunal da Covilhã, depois de sair em defesa de duas colegas do Ministério Público (MP) que estavam a ser insultadas por um arguido, revoltado com uma decisão do tribunal. "Isto é tudo uma cambada de putas", gritou o homem, em plena secretaria do MP.
"Hoje, as pessoas não têm qualquer tipo de respeito pelas instituições. Estão no tribunal como se estivessem numa tasca. Não há menor solenidade ou respeito", desabafa Luís C, recordando que depois de ter acalmado a discussão, o homem virou costas e saiu. Minutos mais tarde, ao descer as escadas para o rés-do-chão do tribunal, deu de caras com ele. Levou murros e pontapés. O agressor foi imediatamente detido, julgado e condenado ao pagamento de uma multa. "O juiz nem sequer considerou tratar-se de um crime agravado. Somos agredidos em serviço, mas aos olhos dos tribunais somos iguais aos outros."
Um ano antes, já tinha passado por outra experiência, também no tribunal da Covilhã: um outro homem, inconformado por perder a guarda dos filhos, barricou-se numa sala de audiências, sentou-se na cadeira do juiz e apontou uma arma à cabeça.
NEM OS BALCÕES ESCAPAM 
Nem os funcionários atrás dos balcões de atendimento dos serviços escapam aos insultos c às agressões. Margarida J., funcionária da Segurança Social, levou com um telefone em cima. As piores situações, conta, são sempre as que envolvem beneficiários do rendimento social de inserção ou, mais recentemente, do subsídio de desemprego. "A legislação está constantemente a mudar, por vezes demoramos muito tempo a resolver problemas ou a saber responder. As pessoas perdem a cabeça", admite a funcionária. Depois há também as intermináveis. Quando chega ao trabalho já há gente à espera desde as cinco da manhã. Às nove e pouco, as senhas acabam e o stresse acumula-se. Margarida J. já levou puxões de cabelos e cuspidelas em cima. Foi num desses dias especialmente caóticos que um utente irritado lhe atirou com o telefone. "E ainda teve o descaramento de escrever no livro de reclamações depois de me ter agredido." Tudo por causa do tempo de espera, que já ia longo.
"As pessoas ficam ansiosas e andam amedrontadas porque o dinheiro não chega ao fim do mês e por vezes as prestações sociais atrasam-se. Quando não há dinheiro para as coisas mais básicas, descarregam nos funcionários, que são quem dá a cara pelas instituições." No fim de tudo, quem paga as irritações constantes no trabalho são as filhas de Margarida: "Chego nervosa a casa, ralho, não tenho paciência. Há dias em que me apetece desistir de tudo."
SEGURANÇA SOCIAL POUCO SEGURA 
À boleia da crise, as agressões aos funcionários da Segurança Social (SS) têm aumentado. E não são só os que fazem o controlo de subsídios como o Rendimento Social de Inserção em bairros problemáticos que enfrentam dificuldades. As agressões, agora, também acontecem nos balcões de atendimento ao público. O coordenador da Federação Nacional dos Sindicatos, Luís Pesca, diz ter feito chegar vários casos ao Instituto da Segurança Social: "Numa situação de crise em que há uma redução do rendimento disponível das pessoas, geram-se situações que acabam por sobrar para os funcionários, que são quem dá a cara pela instituição."
Os serviços públicos são agora uma espécie de "bomba-relógio", avisa o sindicalista: "Há casos de funcionários que são provocados com linguagem imprópria, tentativas de agressão física, ameaças e até cenas de autêntico pugilato." Um dos principais problemas, para o sindicato, é o aumento da afluência de pessoas aos serviços da SS, sem que o número de funcionários acompanhe essa subida da procura. "Há um avolumar de solicitações, mas os trabalhadores estão a diminuir, essencialmente devido às centenas de aposentações", diz.
Das finanças aos hospitais 
O fenómeno não é exclusivo da SS. O Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, por exemplo, garante que as agressões aos trabalhadores do Fisco são "quase diárias". No ano passado, em Viseu, uma funcionária foi espancada quando fotografava uma casa que iria ser penhorada. E as perspectivas, segundo o vice-presidente do sindicato, não são animadoras no que toca à segurança dos trabalhadores do fisco. "Os casos estão a aumentar devido ao agravar das dificuldades, ao corte dos subsídios, ao aumento dos impostos e do desemprego", acredita José Manuel Anjos. A falta de funcionários nos serviços agrava o problema. "Estamos em situação de ruptura em matéria de recursos humanos e quando se geram filas de centenas de pessoas é natural que o stresse se acumule", acrescenta o representante dos Trabalhadores dos Impostos, que garante que a qualidade dos serviços "está em causa".
Os sindicatos dos médicos também já denunciaram agressões em instituições de saúde. "À medida que se acentuam os problemas sociais, as pessoas tornam-se mais agressivas, bebem mais, têm maiores problemas económicos, grande stresse e mais rapidamente recorrem à violência", contou recentemente à Lusa Pilar Vicente, dirigente sindical e médica no Hospital de São José, em Lisboa. Num inquérito a quase 900 profissionais de saúde familiar, realizado no ano passado, metade disse notar um aumento nas manifestações de insatisfação dos utentes, desde protestos a ameaças, passando pela violência. O principal motivo de irritação dos utentes, segundo o mesmo estudo, divulgado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde, é o aumento das taxas moderadoras.
Rosa Ramos
Ionline, 05-01-2013

“O problema não está na Constituição, está nos políticos”


Entrevista a Jorge Bacelar Gouveia. Constitucionalista considera que governo "desrespeita" a Constituição e que "há margem para fazer diferente" no Orçamento do Estado: «Há um discurso na opinião pública de que é necessária uma quarta república e uma nova Constituição. Eu compreendo a irritação de quem tem esse discurso e a fúria de alguns comentadores que querem fazer um restart do sistema político português. Mas, infelizmente, o problema não está na Constituição. O problema está nos políticos e nas práticas políticas, que têm de ser profundamente revistas, com novos valores e novos princípios. O problema está nas pessoas, que não estão, em grande medida, à altura das necessidades do país».
Ponto de partida da conversa: o Presidente da República (PR) esteve mal, quando decidiu promulgar o Orçamento e só depois enviá-lo para o Tribunal Constitucional (TC). Jorge Bacelar Gouveia sublinha que, com essa opção, "matava-se o mal à nascença", não entrando em vigor um Orçamento ferido de inconstitucionalidade. Ao mesmo tempo, o TC ficaria "amarrado", porque não poderia adiar as consequências da decisão, como fez no ano passado. Mas, no final de contas, defende o constitucionalista e ex-deputado do PSD, "mais vale a sucessiva que nenhuma".
- Qual poderá ser a posição do Tribunal Constitucional (TC) em relação ao pedido de fiscalização sucessiva feito pelo Presidente da República e pelos deputados?
- O Presidente da República pôs o dedo na ferida ao requerer a fiscalização daquela que, a meu ver, é a questão principal: a suspensão do subsídio de férias de funcionários públicos e pensionistas. A questão suscitada tem uma natureza idêntica à que foi declarada inconstitucional em Julho do ano passado, apesar de algo ter mudado: a suspensão não é de dois subsídios, mas apenas de um. Mas do ponto de vista do respeito pelo princípio da igualdade, a violação continua a ser manifesta e evidente. Há um grupo de pessoas que não vai receber um subsídio quando todos os outros recebem. Para haver um sacrifício, teria de haver um sacrifício que todos suportassem e que não fosse apenas uma parte da população a suportar e a ficar privada do subsídio. Se há uma crise financeira nacional, essa crise deve ser suportada por todos e não apenas por uma minoria dos cidadãos.
- Que consequências pode acarretar o Constitucional considerar estas medidas inconstitucionais?
- Penso que a questão mais importante vai ser a de perceber se, perante a decisão de inconstitucionalidade, haverá novamente o adiamento do subsídio de férias para o ano seguinte, ou se há outra solução intermédia. Há três posições possíveis. A primeira posição poderá ser a decisão ter efeitos retroactivos, a partir do dia 1 de Janeiro; uma solução intermédia, que passará por não ser inconstitucional até ao momento em que o tribunal decide, mas sê-lo a partir desse momento e até ao fim do ano – se não for em Maio ou Junho, será no segundo semestre; e uma terceira solução – uma solução mínima ou solução nenhuma -, a de ser inconstitucional mas o tribunal adiar os efeitos para 2014, à semelhança do que fez em 2012.
- Qual poderá ser a opção escolhida?
- Penso que nunca será a terceira, mas pelo menos a solução intermédia, de ser inconstitucional a partir do momento em que o TC decida Ou, então, ser inconstitucional desde o princípio do ano. Atendendo ao facto de ser uma reincidência, penso que o tribunal não deve decidir da mesma forma que decidiu no ano passado. Porque, se não se retirarem efeitos práticos dessa fiscalização, isso estaria a beneficiar um poder legislativo infractor e estaria a reincidir na mesma inconstitucionalidade. Penso que o tribunal vai decidir de outra maneira.
- Reincide-se porque não há margem para fazer diferente ou porque há um simples desrespeito pela Constituição?
- Há um desrespeito pela Constituição e há margem para fazer diferente. O governo errou em insistir e em repetir numa medida que foi objectivamente declarada inconstitucional pelo TC. Há muitas medidas alternativas que poderiam ser tomadas, e algumas o governo tomou – como o aumento generalizado dos impostos -, mas em relação aos funcionários públicos e pensionistas insistiu numa fixação, numa obsessão de privar do subsídio, tratandoos de uma forma desigualitária em relação a todos os trabalhadores e dos outros cidadãos.
- Como interpreta essa insistência?
-Temo que tenha por trás de si uma ideologia contra a Função Pública ou um pressuposto errado de considerar que os funcionários do Estado ganham demais, que os funcionários públicos não trabalham ou que são em número excessivo. Até admito que as coisas não estejam bem na Função Pública, mas cada funcionário não pode ser culpado de um conjunto de opções políticas tomadas ao longo de anos, que não permitiram que a Função Pública se tomasse mais eficiente e organizada. Não se pode generalizar e, sobretudo, há que respeitar as expectativas das pessoas. O Estado tem que agir de boa fé, e este tipo de medidas não traduz esse princípio de boa fé no relacionamento com os funcionários públicos.
- Como vê os comentários da Comissão Europeia, quando fala em rendimentos dos funcionários públicos portugueses 20% mais elevados que no resto da União?
- Vejo mal. Os países têm diferentes tradições nas suas administrações públicas e essa é uma matéria que diz respeito à gestão interna dos países. Muitas vezes, esses técnicos da Comissão Europeia não têm conhecimento da realidade interna dos diferentes países e limitam-se a fazer comentários superficiais, que não podem ser levados a sério. Há um déficit de conhecimento real das situações em relação ao modo como a FP está organizada.
- Não há demasiados funcionários públicos?
- Portugal não tem um excesso de funcionários públicos, tendo em conta a média europeia, como também não há ordenados exagerados em relação à média europeia. Tudo isso são opiniões que nunca são assumidas politicamente pelos órgãos da União Europeia, mas são veiculadas à socapa por uns pseudo-burocratas que lançam, muitas vezes, a confusão. Se a União Europeia acha que a Função Pública portuguesa está mal organizada, que o diga frontalmente através dos seus órgãos legítimos. Não utilize este subterfúgio de uns porta-vozes, pseudo-técnicos da matéria que dão uns palpites. Não pode ser assim.
- Justificava-se o pedido de fiscalização de outros artigos?
- Penso que a questão dos subsídios é uma questão importante, mas há mais questões que podem ser colocadas. Uma delas é a da diminuição dos escalões de IRS. A Constituição não tem uma indicação precisa, diz apenas que o IRS deve ser progressivo. Claro que quando reduzimos os escalões, a progressividade diminui e a receita fiscal aumenta, porque os escalões mais baixos vão encaixar em taxas mais altas, mas isso não é inconstitucional. Traduz uma opção política de crise, mas não fere nenhum princípio da Constituição.
- E sobre o aumento de impostos?
-Há a questão sobre se a carga fiscal não terá ultrapassado um limite máximo. O que tem uma dificuldade acrescida, porque esse limite máximo não está na Constituição. Falamos que os impostos não podem ser confiscatórios – quando ultrapassem um máximo acima do qual não poderiam ir -, mas a Constituição não tem esse limite. E mesmo que fosse objectivável de alguma maneira, não teríamos ainda chegado a esse limite, porque não estamos na casa dos 80% de tributação. Há o exemplo do TC em França, em relação a um imposto que Hollande operacionalizou, de 75% sobre os rendimentos dos mais ricos, que foi considerado inconstitucional. Estamos ainda muito longe de uma tributação de 75% para os rendimentos mais altos.
- Mesmo com os mais de 50% sobre os rendimentos mais elevados?
-Admito que a questão seja controversa, mas eu, se fosse juiz, não consideraria inconstitucional. É, de resto, uma questão associada a uma das propostas do CDS para a revisão constitucional, que se frustrou, em que o próprio CDS estabelecia um limite máximo para a carga fiscal. E há um outro problema, da diminuição severa da autonomia das autarquias locais, porque há uma série de receitas que já não podem ser deliberadas no âmbito autárquico, aliadas a uma redução das transferências. Aí, penso que poderá haver um problema de inconstitucionalidade. Um outro ponto tem que ver com a diminuição severa dos descontos que os contribuintes podem fazer no âmbito das despesas com a Saúde e a Educação, que também pode criar um problema de inconstitucionalidade. A Constituição, no artigo 104°, diz que no IRS deverão considerar-se as condições concretas do agregado familiar. A partir do momento em que os agregados não podem descontar estas despesas, necessárias à vida familiar, essas famílias estão a ser prejudicadas porque vão ter um tratamento igual às famílias que não têm filhos ou idosos a seu cargo.
- Ao aumento de impostos junta-se um corte de quatro mil milhões de euros nas funções do Estado que o governo terá de fazer...
-É necessário. Vivemos uma situação de crise, mas é algo que tem de ser visto com cuidado porque tem que ver com a reforma do Estado Social. Não podemos confundir medidas conjunturais e medidas estruturais. Admito que o Estado Social sofra uma redução drástica num curto prazo, para resolvermos o equilíbrio das contas públicas, mas para o futuro certas medidas não podem continuar.
- Não se corre o risco de que se transformem em medidas permanentes?
- Há esse risco, mas do ponto de vista do discurso político tem de haver a percepção de que há uma reforma do Estado Social de curto prazo e uma outra de longo prazo. No curto prazo, as medidas têm de ser aceites. Não gostamos delas, sofremos todos os dias com essas medidas, mas têm de ser aceites desde que sejam temporárias, equitativas e proporcionais. Se o sacrifício for para todos, e se for temporário, a generalidade dos portugueses deve compreender a sua necessidade. Mas não podem ser perpétuas, devem desaparecer a partir do momento em que voltarmos a uma situação de normalidade financeira.
- E no longo prazo?
- As grandes questões têm que ver com o financiamento da Saúde e da Educação, áreas que ocupam quase 70% da despesa pública. Tem de haver um novo modelo de financiamento que passe pela eliminação de uma gratuitidade cega que a Constituição ainda estabelece em relação ao ensino básico e que é injusta mesmo para aqueles que pagam menos ou que não pagam nada. Neste momento, uma família rica, que está no escalão mais alto do IRS, não paga nada, tal como uma família pobre que está no escalão mais baixo. A solução seria deixar de ter um sistema automaticamente gratuito para passar a um que fosse financiado de acordo com a capacidade económica de cada agregado familiar. Neste caso, a igualdade absoluta da gratuitidade é uma desigualdade.
- A Constituição é incompatível com o estado de emergência do país?
- A Constituição não bloqueia nem o desenvolvimento do país, nem a eficiência da economia, nem a legitimidade do poder político. Pelo contrário, a Constituição Portuguesa, desde 1976, tem sido um motor de desenvolvimento e um calibrador de crises políticas em vários momentos. Há um discurso na opinião pública de que é necessária uma quarta república e uma nova Constituição. Eu compreendo a irritação de quem tem esse discurso e a fúria de alguns comentadores que querem fazer um restart do sistema político português. Mas, infelizmente, o problema não está na Constituição. O problema está nos políticos e nas práticas políticas, que têm de ser profundamente revistas, com novos valores e novos princípios. O problema está nas pessoas, que não estão, em grande medida, à altura das necessidades do país.
- Faltam os políticos?
- Falta um político de uma nova geração. As sociedades têm vindo a evoluir e hoje temos um mundo internacionalizado, mas precisamos de pessoas que saibam interpretar de uma outra forma as necessidades dos portugueses. É necessário um novo discurso e uma nova prática política e isso poderá passar por mudanças nos partidos políticos e no reequilíbrio de forças político-partidárias. Temos um sistema partidário muito envelhecido, sempre com os mesmos partidos, com poucas alterações e começa a aparecer uma necessidade de mudança profunda na sociedade partidária.
- Abrindo-se mais à sociedade civil?
- O 15 de Setembro foi uma demonstração disso mesmo. As pessoas já não se revêem nos partidos e muito menos se revêem nas ideologias, querem a resolução das suas necessidades concretas, mas querem mais do que isso: querem políticos competentes, honestos, que não mintam constantemente e que possam fazer cedências e compromissos, independentemente do seu partido ou do seu modo de ver o mundo. E que não seja sectários. O grande problema de muitos partidos portugueses é o sectarismo de não acolherem sugestões que venham de outros quadrantes. Esse é também um problema de incompetência profissional, de pessoas que não têm uma vida profissional prévia, que não têm mundo, não sabem qual é a realidade, cresceram nos aparelhos partidários e nunca perceberam muito bem quais são as realidades concretas das pessoas. É necessária uma nova geração de políticos, com outras características.
- O facto de ter sido o Presidente a pedir a fiscalização sucessiva pode resultar numa apreciação mais rápida?
- O tribunal trata de maneira igual qualquer pedido que seja apresentado. Claro que o Presidente tem, protocolarmente, mais importância que os partidos da oposição. Como os deputados devem apresentar os pedidos dias depois, penso que o processo será um único, os vários pedidos vão ser tratados em conjunto. Mas é importante que o chefe de Estado tenha feito o pedido logo no primeiro dia útil do ano, e julgo que seria importante o TC decidir o mais rapidamente possível, cumprindo os prazos. Não é habitual que o faça, mas julgo que desta vez terá oportunidade de respeitar esses prazos e em três meses tomar uma decisão.
- Que consequências deve o governo tirar, no caso de haver normas consideradas inconstitucionais?
- O governo tem o dever de respeitar a decisão do TC e não deve amuar por causa dessa decisão. Um governo responsável não vai amuar quando o TC decide a inconstitucionalidade de uma norma que ele promoveu. Em democracia não há amuos, há respeito pelas instituições e pelo poder judicial. O governo deve propor à Assembleia da República um Orçamento rectificativo e arranjar uma alternativa de captação de receitas ou diminuição da receita correspondente. Sem cair numa chantagem, que me parece que já começou, em relação ao TC, dizendo que se vai demitir ou que isso vai criar uma crise política. Mas, felizmente, o TC não se vai deixar pressionar. Era só o que faltava, num Estado de direito democrático, que o poder legislativo que faz leis inconstitucionais ameaçar o poder judicial e os poderes em geral de que vai haver uma crise política, que o país vai ficar ingovernável e vai entrar na banca rota se o TC considerar uma norma inconstitucional. O governo tem de ter preparado um plano B.
- E o Presidente deve retirar consequências políticas de um chumbo consecutivo do OE?
- Acho que não. O TC tem independência na decisão e o Presidente da República deve estar vigilante no sentido de que o governo e o parlamento vão respeitar a decisão do tribunal de que os subsídios venham a ser devolvidos aos portugueses. Mas não creio que daí nasça nenhuma crise política. Nem a demissão do governo nem a dissolução da Assembleia da República. O chefe de Estado tem uma missão importante de defesa da Constituição. É o único órgão de soberania que jura sobre a Constituição. Mas normas inconstitucionais há em todos os governos e todos os parlamentos. É verdade que há uma maior gravidade porque é uma reincidência, mas ainda assim não penso que seja motivo para qualquer sanção de demissão do governo ou dissolução da Assembleia da República.
- Que factores podem promover essa crise política?
- A grande questão que se coloca é saber se esta orientação económica e financeira do governo é a certa para levar Portugal a sair da crise em que se encontra. Mas, sobre isso, só posso subscrever as palavras do Presidente, que diz preto no branco que o caminho não é este, que este caminho iria conduzir a uma crise ainda maior. Será decisivo este primeiro semestre, para ver os resultados desta política económica.
- Na quinta-feira, o presidente da RTP terá dito que a privatização ficaria resolvida dia 10, em reunião de Conselho de Ministros. Em que moldes pode ser feita essa privatização?
- A Constituição ocupa-se muito do problema da Comunicação Social, porque há uma série de normas que visam garantir a sua transparência e independência, porque é um poder social muito importante e onde há uma ideia de interesse público, sobretudo o dever de informar. Em relação à televisão, a Constituição é expressa, ao dizer no artigo 38, número cinco, que o Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e televisão. Não de jornais, mas de televisão. Há várias interpretações possíveis, mas penso que esta norma está sobretudo preocupada com a substância das coisas, não com a forma das coisas.
- Em que se traduz essa substância?
- Em haver uma actividade televisiva, isto é, a transmissão de televisão em canal aberto, em que haja informação e entretenimento que possam ser enquadrados nessa ideia de serviço público. Terá de ser em canal aberto, senão não estaria aberto ao público, mas a Constituição não fala no número de horas e não se compromete especificamente com o número de certo tipo de programas emborainclua informação e entretenimento -, mas também não fala no número de canais nem da forma jurídica da empresa, o modo como isso se operacionaliza, nem tinha que falar. A meu ver, este serviço público deve ser garantido, mas não tem de ser através de uma empresa 100% pública.
-A porta está aberta a qualquer modelo?
- Penso que está
Pedro Raínho
I online, 5-01-2013

Decisão à Francesa


Fernanda Palma - O Conselho Constitucional francês considerou inconstitucional, em fiscalização preventiva, uma taxa de imposto de 75% sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros. Mas o fundamento não foi a desproporcionalidade dessa contribuição extraordinária de solidariedade social pedida por dois anos aos titulares dos rendimentos mais elevados.
O Conselho Constitucional entendeu apenas que o método de cálculo do imposto violaria o princípio da igualdade. Com efeito, o projeto legislativo – que teve, entre outras consequências, a atribuição da nacionalidade russa a Gérard Depardieu – previa para os rendimentos sujeitos a imposto uma base estritamente pessoal, não tendo em conta o agregado familiar.
Assim, mesmo que um dos membros do casal não auferisse quaisquer rendimentos, os elevados rendimentos auferidos pelo outro justificariam a aplicação da taxa de 75%. Porém, se num agregado familiar ambos os cônjuges ultrapassassem (até perto do dobro) aquele rendimento, mas nenhum o atingisse singularmente, já não poderia ser aplicada a referida taxa.
Nunca esteve em causa, num Conselho Constitucional a que pertence o próprio Nicolas Sarkozy, a proporcionalidade da altíssima taxa de imposto aplicável a rendimentos muito elevados ou a lógica de solidariedade social em que se baseia. Apenas se discutiu a igualdade entre muito ricos e muito ricos, em nome da equidade fiscal e da sua capacidade contributiva.
Os problemas que o nosso Tribunal Constitucional deverá analisar são de natureza quase inversa. Na verdade, questiona-se a discriminação dos rendimentos do trabalho, em geral, dos funcionários públicos e dos reformados, em particular, e a contribuição extraordinária de solidariedade que incide sobre reformas que em pouco excedem os mil euros mensais.
O Tribunal Constitucional não pode, assim, decidir à francesa, abstendo-se de confrontar a estrutura do Orçamento com princípios constitucionais tão básicos como a igualdade e a confiança. Estará de novo em causa, como já evidenciou o Acórdão relativo ao Orçamento de 2012, a discriminação negativa dos salários e das reformas quanto a outros rendimentos.
E se chegar a ser colocada pelos Deputados a questão da progressividade do imposto (associada à supressão de escalões), o Tribunal Constitucional deverá precisar ainda o significado do princípio da equidade fiscal. Terá de esclarecer qual é o grau de exigência que resulta da previsão constitucional de um imposto sobre o rendimento "único e progressivo".
Correio da Manhã, 6-01-2013