sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Justiça gasta mais que a média europeia com piores resultados


Ir mais longe na privatização seria controverso

Frente-a-frente

João Correia e Daniel Proença de Carvalho

SISTEMA JUDICIAL

Gastos de Portugal na Justiça superam a média europeia

ESPECIAL FUNÇÕES DO ESTADO

Gastamos acima da média, mas não temos funcionários nem juízes a mais. O que temos a mais é litigância e os processos são demorados. A eficiência da Justiça volta a estar em discussão

FILOMENA LANÇA*

filomenalanca@negocios.pt

Em Portugal, a despesa pública com Justiça medida em percentagem do PIB está acima da média europeia. São cerca de 0,98%, quando nos nossos parceiros da Zona Euro esse valor anda em média nos 0,46%. E a causa não parece estar no número de funcionários e juízes que fica em linha com os seus parceiros do Euro. Os números são do Conselho da Europa, que todos os anos realiza um relatório sobre a eficiência da Justiça, e referem-se a 2010 (pelo que excluem os cortes substanciais nos salários de 2012).

Em contrapartida, temos mais processos entrados por cem mil habitantes e os casos demoram mais tempo em tribunal. As pendências, essas, também são conhecidas e já este ano voltaram a subir, aproximando-se cada vez mais de 1,7 milhões.

A despesa com a Justiça, que no OE para 2013 registará mesmo um ligeiro aumento de 2,5%, volta agora a estar em avaliação, depois de Paula Teixeira da Cruz ter afirmado que está em estudo um corte de 500 milhões partilhado entre a Justiça, a Administração Interna e a Defesa. Mas, como e onde cortar?

José Mouraz Lopes, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), recusa que o País esteja muito longe dos seus principais parceiros europeus. "Numa visão global, Portugal está na média, não entre os muito bons, é verdade, mas também não entre os maus". Além disso, "em algumas áreas, como por exemplo a do crime, está até muito positivo". 

Aqui, verificou-se uma redução do tempo de resolução processual, que está actualmente nos nove meses (era de cerca de um ano em 2007). Noutras áreas, como a do cível ou a comercial, a situação é pior, admite o magistrado. As acções de cobrança de dívida continuam a disparar e as de insolvência também têm vindo a crescer e de 2007 para 2011 o aumento foi de 293%, uma realidade directamente relacionada com a situação de crise que o País atravessa.

Isso, afirma Mouraz Lopes, poderá resolver-se, "deslocalizando alguns investimentos", ou seja, "fazendo um investimento rápido nas áreas onde as coisas estão objectivamente mais complicadas".

Reduzir pessoal não é solução

A implementação do novo mapa judiciário, a partir do próximo ano, deverá promover poupanças na estrutura, mas os magistrados avisam que cortar nos recursos humanos é impossível. "Os funcionários judiciais estão à conta, bem como os juizes, e temos carência de magistrados do Ministério Público (MP)", sublinha Rui Cardoso, presidente do Sindicato dos Magistrados do MP, lembrando que a magistratura continua a precisar de mais de 40 substitutos, que exercem as funções de MP sem terem tido a necessária formação do CEJ.

Olhando mais uma vez para as estatísticas do Conselho da Europa verifica-se que tanto no número de juizes como no de funcionários, Portugal está na média dos restantes países e só a ultrapassa no número de magistrados do MP, o que poderá explicar-se com a diferença de regimes entre os vários países. As estatísticas relativas aos sempre polémicos salários dos juízes revela também uma posição abaixo da média. E, embora seja preciso ter em conta as diferenças de nível de vida de país para país, estas estatísticas, por serem de 2010, não reflectem ainda os cortes nos salários dos magistrados em 2011 e em 2013.

Em alternativa aos cortes, a proposta é que se simplifiquem procedimentos, que se dê mais transparência ao sistema, como defende Mouraz Lopes. Ou, também, que se invista em boas aplicações informáticas "que não obriguem a inserir três vezes os mesmos dados em bases diferentes, como agora acontece", acrescenta Rui Cardoso. A reforma do mapa judiciário ou do código de processo Civil, que em breve deverão chegar ao Parlamento poderão ir nesse sentido, mas falta pô-las no terreno. *com ME

Justiça já privatizou o que podia sem ter de alterar a Constituição

Entregar a privados a gestão dos tribunais, do património imobiliário ou das prisões seriam medidas possíveis, mas polémicas. A Justiça é para os tribunais e para o Estado

FILOMENA LANÇA

filomenalanca@negocios.pt

A Constituição da República é taxativa: "A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos". Ora, a Justiça é uma competência exclusiva dos tribunais, órgãos de soberania, parte integrante do Estado. Posto isto, redefinir as funções do Estado em matéria de Justiça sem mexer na CRP pode ser um verdadeiro quebra-cabeças e a maioria dos especialistas inclina-se para a impossibilidade de tal acontecer.

"Na área da Justiça não se entende que reforma do Estado possa existir porque não há grande margem para privatizar para além de sérios problemas de constitucionalidade", resume Nuno Garoupa, professor de direito da Universidade do Illinois. Rui Alarcão, professor jubilado e membro do Conselho Superior do Ministério Público (MP), concorda: "É preciso proceder com todas as cautelas, pois estão em causa funções primordiais do Estado".

Paula Teixeira da Cruz estará já a delinear um conjunto de cortes que implicarão uma revisão das funções do Estado e que acomodarão, a meias com a Defesa e com a Administração Interna, uma poupança da ordem dos 500 mil euros. De que forma? "Só se for a eito", afirma o bastonário da Ordem dos Advogados. Marinho e Pinto tem-se batido contra qualquer forma de privatização da Justiça, nomeadamente contra a arbitragem como meio alternativo de resolução de litígios. Esta, no entanto, é considerada constitucional, explica Paulo Otero, uma vez que é exercida por "tribunais arbitrais". Deve mesmo, acrescenta Rui Alarcão, ser incentivada. "Aí haverá lugar para uma certa contratualização da Justiça, numa linha de orientação que deve ser continuada".

Tribunais geridos por privados?

No entanto, não será com incentivos à arbitragem que se conseguirão poupanças significativas na Justiça Paulo Otero, especialista em direito constitucional, concorda que as limitações são muitas. Talvez seja possível, admite, entregar a privados a gestão dos tribunais. "Não passa por aí o exercício de uma função de autoridade, é uma função acessória e instrumental, preparatória ou executiva das decisões do Juiz".

Outra hipótese passaria por entregar a privados a gestão do vasto património imobiliário que integra as instalações judiciais. Resta saber que poupanças obteria o Governo com medidas destas. "Desde logo a ausência de responsabilidades salariais em relação a todos os funcionários, podendo uma parte das custas judiciais reverter para os gestores privados, como receita", sugere Paulo Otero.

Os magistrados, contudo, nem querem ouvir falar desta possibilidade. "A gestão dos tribunais está intimamente ligada à sua função jurisdicional", afirma Rui Cardoso, do Sindicato dos Magistrados do MP. Mouraz Lopes, da Associação Sindical dos Juízes, concorda e acrescenta que pensar em privatizar a gestão das cadeias - outra hipótese que tem sido avançada - também é uma impossibilidade constitucional. "A execução de penas não deve sair da órbita do Estado", diz. "Admito que se entreguem alguns serviços, como o fornecimento de refeições, mas uma privatização seria um erro, além de que tem perversidade", acrescenta o magistrado.

Um erro e "genericamente um desastre, com um encaixe financeiro mínimo para o Estado e absolutamente fora de moda", afirma Nuno Garoupa "O Reino Unido introduziu cadeias privadas em 1992, mas tem sido um fracasso. Israel privatizou as suas cadeias em 2004, mas o Supremo Tribunal de Israel decidiu que era inconstitucional porque viola a dignidade humana", esclarece o especialista.

Do notariado à arbitragem: os passos da privatização da Justiça em Portugal

Já há várias áreas da Justiça entregues a privados. Sempre com alguma polémica e no limite do que permite a Constituição

Em 2003, quando o então Governo de Durão Barroso decidiu entregar aos privados o exercício do notariado, levantou-se um coro de críticas, muitas das quais ainda hoje se mantêm. Foi o primeiro grande exercício de privatização da Justiça e a controvérsia de então manteve-se sempre que medidas idênticas foram tomadas. No caso dos notários entendeu-se que seria perfeitamente constitucional, por serem os próprios notários detentores de fé pública e de representação do próprio Estado.

A arbitragem foi o passo seguinte. Assume hoje uma importância crescente, já que os litígios envolvendo grandes negócios praticamente vão desaparecendo dos tribunais. Há cerca de um ano foi lançada também a arbitragem em matéria fiscal, que começa igualmente a ultrapassar as desconfianças iniciais dos contribuintes. O tema continua, no entanto, a dividir as hostes. Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, é um dos seus grandes detractores. "A justiça arbitral é uma fraude, é tudo feito na clandestinidade, às escondidas. Quem tem dinheiro ganha", afirma. Do lado dos grandes escritórios de advogados, contudo, a arbitragem é defendida e acarinhada. E a própria troika é grande defensora dos meios alternativos de resolução de litígios (ver texto ao lado).

Além da arbitragem, verifica-se uma aposta cada vez maior na mediação de conflitos por antecipação e tentando evitar que os litígios cheguem efectivamente a tribunal. Acontece já muito nas áreas de família ou laboral, por exemplo. "O Estado deve garantir a justiça e não obrigar as pessoas a fazer as pazes, a entender-se com burocratas, porque essa não é a função do Estado", sustenta, mais uma vez, Marinho e Pinto.

Foi também no sentido da privatização a grande reforma da acção executiva há já quase uma década. Os solicitadores passaram a exercer funções de agentes de execução efectuando a cobrança de dívidas reconhecidas previamente pelos tribunais. Neste momento está já outra reforma a caminho, no sentido, aliás, de entregar mais prerrogativas aos agentes de execução, nomeadamente no que toca à penhora de depósitos bancários.

Troika é defensora da resolução de litígios fora dos tribunais

A arbitragem e a mediação são meios de resolução de litígios alternativos aos tribunais que têm vindo a ser cada vez mais utilizados e que a toika fez questão de incentivar. O memorando previa a elaboração de uma nova lei da arbitragem - que, de resto, vinha já a ser preparada - e que se encontra já em vigor. Pretendia aliciar cada vez mais os operadores para estes meios processuais, onde se resolve já, hoje em dia, uma parte significativa dos litígios que envolvem grandes negócios. Porque é mais rápido do que um tribunal comum, onde as acções ainda se arrastam durante longo tempo, e permite à partes a escolha dos árbitros, que podem, assim, ser especialistas nas matérias em cima da mesa.

Outra aposta da troika era a arbitragem tributária, que entrou em vigor em Julho do ano passado e que pretendia retirar dos tribunais tributários uma parte significativa de acções. As vantagens são semelhantes às da arbitragem comercial e não faltaram vozes a avisar que se estava a fazer uma arbitragem para ricos. O modelo está ainda a entrar em velocidade cruzeiro, mas tem havido um número crescente de processos a dar entrada. Longe, ainda assim, do que seria necessário para ter um impacto significativo nas pendências tributárias.

O memorando prevê, por outro lado, a aprovação de uma nova lei dos Julgados de Paz, que permita também que um número mais substancial de pequenos litígios possa ser "desviado" para estes juízos, aliviando os tribunais comuns. Esta reforma continua por fazer e deverá estar concluída antes do final do ano. Mais rápidas foram as alterações em matéria de inventário, que estão em fase final de processo legislativo e permitirão transferir para os notários a realização de inventários de bens em caso de partilhas.

FRENTE-A-FRENTE AS MESMAS PERGUNTAS. DUAS VISÕES

1. De que forma é que o Estado pode reduzir o seu peso na área da Justiça?

2. Até onde deve ir essa redução? A privatização da justiça é o melhor caminho?

3. Os cidadãos sairão a ganhar? As poupanças para o Estado seriam significativas?

4. Portugal vive o momento adequado a uma reforma deste tipo?

JOÃO CORREIA

ADVOGADO E EX-SECRETÁRIO DE ESTADO DA JUSTIÇA

"A privatização não é sequer o caminho"

1. O Estado deve ser mais pesado do que é. A Justiça é levada pouco a sério em Portugal, daí a sua leveza. Dum lado, é lenta. Doutro lado, os comentadores televisivos são, por regra, incompetentes. O Estado não deve reduzir o seu peso na área da justiça. Bem pelo contrário, deve ser eficaz, deve ser actuante, ser responsável, responsabilizável e responsabilizada.

2. O que se pode e deve reduzir são os formalismo e as irresponsabilidades. Os formalismos geram a prolixidade e as artimanhas puramente dilatórias; as irresponsabilidades provocam os abusos, o autoritarismo, a lentidão injustificada A privatização não é sequer o caminho. Veja-se o que aconteceu com a Acção Executiva e com a Lei de 2009 sobre os Inventários. Confunde-se, por pura ignorância, o conceito de privatização com a necessidade de devolução a oficiais públicos Ceia-se: notários) de funções parajudiciais de suporte à actividade judiciária.

3. Os cidadãos, está demonstrado, perderam e de que maneira, com a privatização cega de competências que estavam a cargo dos tribunais. Os responsáveis foram alertados na altura própria. Mas dada a sua superficialidade, entenderam transferir competências sem nexo, sem estudo e sem estruturas. O resultado está à vista. O Estado não ganha um cêntimo com a "privatização". Só perde.

4. A reforma é, perante a crise, ainda mais necessária do que o era antes da crise. Este é o momento historicamente apropriado para criar grandes comarcas, para a especialização, para um outro modelo de gestão financeira e de recursos humanos, dum lado, e para uma diferente abordagem dos conflitos nos tribunais, por outro lado. Em suma, esta é a última estação do comboio do progresso para uma justiça do século. XXI. De facto, não nos podemos esquecer que temos uma organização territorial com quase 200 anos e um modelo de relações entre o Estado e os cidadãos com quase 80 anos. Quem os quiser defender, que ponha o braço no ar, mas terá que apresentar alternativas para destruir a degradação da justiça que hoje - todos - vivemos. Se o não fizer, então fique quieto e calado.

DANIEL PROENÇA DE CARVALHO

ADVOGADO

"O caminho a seguir é o do reforço da justiça arbitral"

1. Sim, o Estado pode reduzir o seu peso na área da justiça. Quando comparamos os meios humanos e materiais afectos ao sistema da justiça com os de países europeus que nos são próximos, verificamos que não é por falta de meios que a justiça está longe de corresponder aos padrões exigíveis em eficiência e qualidade. O número de magistrados judiciais e do Ministério Público cresceu bastante mais do que o número de processos entrados no sistema; ou seja, diminuiu muito a produtividade do sistema em 1960, a cada juiz correspondiam 1.040 novos processos; em 2011, por cada juiz, 459 novos processos (dados da Pordata). No que toca aos gastos, Portugal é também um dos países onde a despesa per capita com a justiça é mais elevada.

2. Para além das reformas na organização e funcionamento do sistema, de modo a aumentar a sua eficiência e a reganhar a credibilidade que infelizmente foi perdendo, o caminho a seguir é o do reforço da justiça arbitral, designadamente através de centros de arbitragem, sensibilizando as empresas para o recurso sistemático a esse meio de resolução de conflitos, em alternativa aos tribunais do Estado.

3. Os cidadãos e as empresas têm a ganhar com o recurso aos meios alternativos ao sistema de justiça do Estado, aliás a rapidez e a satisfação das partes que recorrem à arbitragem tem vindo a aumentar muito significativamente. Hoje os grandes litígios passam por aí, o desafio é retirar do sistema do Estado todo o contencioso a que os centros de arbitragem dão melhor resposta na justiça cível, comercial, laboral, administrativa e fiscal.

4. Há muito que a reforma da justiça deveria ter sido empreendia mas os poderosos interesses que dominam o sistema têm impedido qualquer tentativa nesse sentido. A emergência em que nos encontramos é propícia à reforma, que deve merecer o consenso pelo menos dos partidos do Governo e do PS.
Jornal Negócios 9 de Novembro de 2012

Leituras Oficiosas

Não se esqueça de ler as Leituras Oficiosas com outras informações de interesse actual.

Acesso ao Direito conta com menos 18 milhões de euros em 2013

A ministra da Justiça admitiu esta manhã que o regime de Apoio Judiciário vai contar em 2013 com 42 milhões de euros, menos 18 que o ano passado.

Paula Teixeira da Cruz, que falava no Parlamento durante a audição no âmbito no debate na especialidade do Orçamento do Estado para 2013, justificou que esta descida deve-se ao facto de terem sido aprovadas e implementadas medidas de fiscalização do sistema de acesso ao Direito. Isto é, com as novas regras, quis dizer a ministra, o apoio judiciário custará menos dinheiro ao Estado.
Recorde-se que o ano passado a ministra ordenou uma auditoria ao sistema de apoio judiciário - defesa oficiosa dos mais desfavorecidos - que detectou várias fraudes da parte de advogados que prestavam o serviço. O caso seguiu para a Procuradoria Geral da República.
No entanto, Paulo Teixeira da Cruz fez questão de deixar claro aos deputados que a gestão será "flexível", isto é, "nenhum cidadão ficará sem aceso ao direito" caso aquela verba de 42 milhões de euros seja ultrapassada.
Sobre o combate ao crime económico, Paula Teixeira da Cruz repetiu que esta é uma das três áreas prioritárias da Justiça para 2013. Paula Teixeira da Cruz anunciou um reforço do investimento, nomeadamente na nova sede da PJ, e garantiu: "não deixaremos de nos bater pelo enriquecimento ilícito", dando a entender que em breve será apresentada uma proposta no Parlamento e convidando o PS a votar a favor.
Inês David Bastos | Negócios | 09-11-2012

2º CONCURSO CURRICULAR DE ACESSO AOS TRIBUNAIS DA RELAÇÃO

O Conselho Superior da Magistratura acaba de anunciar no seu site oficial que aprovou a abertura do 2º Concurso Curricular de Acesso aos Tribunais da Relação.
Cerca de um ano depois da abertura do primeiro concurso e escassos meses depois da colocação de metade dos quarenta e oito graduados são chamados, pela segunda vez, dezasseis dos anteriores candidatos.
Três questões se me suscitam e para as quais não tenho resposta
Foram ponderados os erros apontados ao primeiro concurso, nomeadamente pela ASJP?
Porque se abre um concurso para um universo tão limitado de dezasseis candidatos?
Não será de repensar, nomeadamente a periodícidade dos concursos e o número de candidatos abrangidos, à semelhança, por exemplo, do que sucede com o STJ?

Trabalhadores da RTP pedem investigação à Procuradoria-Geral da República sobre TDT


Televisão digital terrestre

Por Fabíola Maciel
Comissão de trabalhadores da televisão pública querem inquérito à "eventual violação" de interesses dos cidadãos"

A comissão de trabalhadores (CT) da RTP entregou ontem uma carta e alguns documentos à Procuradoria-Geral da República a pedir esclarecimentos sobre a "eventual violação de interesses difusos dos cidadãos" no processo de introdução da televisão digital terrestre (TDT).

Camilo Azevedo, da CT, disse ao PÚBLICO esperar que "o Ministério Público abra um inquérito" sobre a implantação da TDT. O porta-voz afirmou que é função dos "trabalhadores do
 serviço público zelar pelos interesses dos cidadãos". 

Neste sentido, em Janeiro, os trabalhadores da RTP forneceram ao Ministério Público vários documentos com informações sobre o processo. Contudo, dez meses depois não há qualquer desenvolvimento, pelo que decidiram entregar mais documentos.
 

"Poupar-se-á tempo e dinheiro dos contribuintes, bem como os prejuízos resultantes de um processo incorrecto de introdução da TDT em Portugal, se a participação não tiver ficado na gaveta", diz a CT.

Na semana passada, os trabalhadores da RTP acusaram a empresa de televisão pública de ter "sido cúmplice dos ganhos indevidos que acumulam os operadores da televisão por cabo" no processo de apagamento do sinal analógico e passagem para a TDT.
 

O momento de entrega de documentos aconteceu na sequência da apresentação da apresentação da tese de doutoramento de Sergio Denicoli sobre "a implementação da televisão digital terrestre em Portugal", em que o investigador concluiu que "a Anacom favoreceu a Portugal Telecom".
 

Voto de louvor a tese polémica
A tese foi ontem publicada na Internet pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho (UM), que também atribuiu um voto de louvor a Denicoli pela obtenção do grau de doutoramento. A investigação criou uma onda de solidariedade entre académicos e cidadãos, e na Internet circula uma petição intitulada "Pela liberdade de investigação académica", que conta com mais de seis mil subscritores.
 

Em resposta às declarações de Denicoli sobre a existência de "indícios de corrupção" no processo, a Portugal Telecom anunciou ir levar o caso a tribunal. Uma posição que o presidente, Zeinal Bava, reforçou na quarta-feira: "Não há processo de corrupção nenhum, há uma tese de alguém que faz acusações e agora vamos deixar que o tribunal apure o que levou essa pessoa a dizer coisas muito graves e que atentam contra a honra da PT."

Em contraponto, o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da UM disse ontem que se trata de "ameaças públicas" e manifestou "solidariedade e alerta para o condicionamento que estas práticas podem representar para a investigação científica", bem como "total apoio" à petição.
 


Público | 2012.11.09

Ministério da Justiça poupou 6,2 milhões com renegociação de contratos de arrendamento

09.11.2012 - 12:10 Por Lusa
A ministra admitiu uma quebra da receita com as taxas de justiça de 630 para 615 milhões de euros

A ministra da Justiça anunciou esta sexta-feira que o seu ministério conseguiu poupar 6,2 milhões de euros com a renegociação, nos últimos 15 meses, de vários contratos de arrendamento que oneravam o sector.

Falando no Parlamento sobre o Orçamento para 2013, Paula Teixeira da Cruz precisou que, no caso do arrendamento do Campus da Justiça em Lisboa, a renegociação da renda permitiu reduzir o encargo em 1,3 milhões de euros por ano.
Relativamente a dúvidas suscitadas sobre o custo da reforma do mapa judiciário, a ministra realçou que quando falou recentemente em 29 milhões de euros estava a englobar toda a requalificação dos tribunais que “estão a cair” por falta de obras. Entre a reabilitação dos edifícios apontou como uma das prioridades o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) do Porto, cujos investigadores reclamam há muitos anos por instalações dignas.
A nova sede do Instituto de Medicina Legal em Coimbra, o novo estabelecimento prisional de Angra do Heroísmo, nos Açores e a requalificação e melhoramento da prisão de Alcoentre foram outras indicadas por Paula Teixeira da Cruz, que garantiu que o orçamento é para cumprir.
O deputado comunista João Oliveira elogiou o rigor das contas apresentadas para a Justiça, mas mostrou-se preocupado com o corte de 23,5% nas verbas destinadas ao apoio judiciário, umserviço jurídico que o Estado paga aos advogados oficiosos na defesa de pessoas sem recursos financeiros.
João Oliveira alertou ainda para cortes em áreas sensíveis da Justiça como sejam as perícias, fundamentais no combate à criminalidade económico-financeira mais organizada e complexa.
O deputado duvidou também da capacidade orçamental para reforçar a PJ com mais inspectores e criticou a demora inusitada de um dos concursos de ingresso em que os candidatos esperam e desesperam há largos meses pela entrada naquela polícia.
Paula Teixeira da Cruz desdramatizou o facto de existir menos seis milhões de euros para o apoio judiciário, dizendo que haverá uma “gestão flexível” ao longo do ano e garantindo que nenhum cidadão ficará sem advogado oficioso, se tal for necessário. Observou, a propósito, o alargamento do serviço de apoio judiciário à zona de chegadas dos aeroportos, pela necessidade de apoiar juridicamente os imigrantes.
A ministra admitiu uma quebra da receita com as taxas de justiça de 630 para 615 milhões de euros, mas manteve o propósito de encetar todas as reformas em curso, desde o código civil ao penal, passando pelo mapa judiciário e meios alternativos de resolução de litígios.
Quanto ao facto de estarem previstas 636 aposentações no sector em 2013, Paula Teixeira da Cruz frisou que esse número é inferior ao número total de entradas para guardas prisionais, inspectores da PJ, magistrados judiciais, oficiais de justiça e médicos e técnicos do Instituto de Medicina Legal.    

Ministra garante que Orçamento reforça verbas para investigação criminal

09.11.2012 - 12:00 Por Lusa

Paula Teixeira da Cruz falou em contratações em várias áreasA ministra da Justiça destacou nesta sexta-feira que o Orçamento do Estado para 2013 prevê um aumento de verbas para a investigação criminal, tribunais, prisões e reinserção social, permitindo também um reforço de meios humanos em áreas vitais.

Falando no Parlamento sobre o Orçamento da Justiça, Paula Teixeira da Cruz sublinhou que, em termos de verbas e relativamente a 2012, a investigação criminal foi contemplada com mais 3%, a reinserção e as prisões com mais 1% e os tribunais com mais 0,9%.

Quanto aos meios humanos, assegurou que o orçamento permitirá um reforço de 237 guardas prisionais, 83 inspectores da Polícia Judiciária (PJ), 55 magistrados judiciais, 400 oficiais de justiça, 16 médicos de Medicina Legal e 26 técnicos do mesmo instituto.

“É um bom orçamento para o Ministério da Justiça”, enfatizou Paula Teixeira da Cruz, aludindo ao reforço de meios humanos e de áreas cruciais do sistema de justiça, como são os tribunais, as prisões, a reinserção e a investigação criminal. Disse ainda que este orçamento tem “subjacente” um conjunto de reformas “substanciais” para o sector, designadamente o Código de Processo Civil e a Lei de Organização Judiciária (mais conhecido por mapa judiciário).

As reformas abrangem ainda segmentos como os Julgados de Paz, Mediação, Processo Administrativo e acção executiva (cobrança de dívidas), estando as alterações nesta última matéria a serem feitas no âmbito da reforma do Código Civil.

Ricardo Rodrigues (PS) contestou a ideia de que o orçamento da Justiça tenha um aumento de verbas, observando que, se forem descontados a reintegração dos subsídios e de outros cortes efectuados em 2012, há um “ligeiro decréscimo”. O deputado socialista contrariou ainda o optimismo da ministra com o anúncio governamental de que serão necessários cortes de quatro milhões de euros na despesa do Estado, pelo que este orçamento não será para cumprir.

O orçamento para a Justiça em 2013 ascende a 1378,7 milhões de euros, registando um aumento de 2,5% (mais 34,1 milhões de euros) relativamente a 2012. Segundo o documento divulgado pelo Governo, a estrutura da despesa consolidada por classificação económica demonstra que 88,3% da despesa se encontra afecta a despesas com pessoal e à aquisição de bens e serviços.

O subsector Estado apresenta um aumento de despesa de 3,4%, mais 37,5 milhões de euros, o que é essencialmente justificado pelo efeito da reposição do subsídio de Natal. O aumento de 3,7 milhões de euros na despesa de investimento é justificado pela construção da nova sede da Polícia Judiciária, em Lisboa, cujo historial, algo rocambolesco, tem mais de uma década e chegou a estar prevista para Caxias.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Exemplo autárquico

Segunda Opinião

Público de 2012-11-08
Por: Rui Pereira, Professor Universitário
De quando em vez, ouve-se dizer que os políticos devem dar o exemplo para credibilizar a Política (que consiste, ou deve consistir, na nobilíssima missão de governar o Estado e procurar o bem comum).
Creio que alguns interessados em dar o exemplo disporão, dentro em breve, de uma magnífica oportunidade para o fazer. Estarão os partidos dispostos a adoptar a interpretação mais rigorosa possível da lei, que estabelece um número máximo de mandatos dos presidentes de câmara municipal e de junta de freguesia, nas próximas eleições autárquicas?
A revisão constitucional de 2004 veio admitir limites à renovação sucessiva de mandatos dos titulares de cargos políticos executivos e a Lei nº 46/2005 determinou que os presidentes de câmara municipal e de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos. No entanto, o parto desta lei não foi fácil (os presidentes dos Governos Regionais, inicialmente abrangidos, ficaram de fora) e a sua interpretação é controversa: o número de mandatos torna-se ilimitado quando os autarcas mudam de concelho ou de freguesia?
Juridicamente, há argumentos para todos os gostos. Como a lei não faz distinções, poderia dizer-se que o intérprete também não as deverá fazer e que a contagem do limite de mandatos inclui mudanças de autarquia. Todavia, a expressão utilizada pelo legislador ("mandato consecutivo") parece apontar para mandatos exercidos na mesma autarquia. Por outro lado, os trabalhos preparatórios do novo regime legal não parecem conclusivos e os seus protagonistas fazem apelo a um nível de subjectividade que não permite apreender com nitidez o espírito da lei.
Mas o problema não é só jurídico e a Constituição nem sequer impõe uma das interpretações. Embora se destine a evitar a criação de nichos de poder e a viabilizar a alternância, a limitação de mandatos também deve ser posta ao serviço da renovação dos autarcas, como se assumiu aquando da aprovação da lei. Ora, a mudança de cadeiras nas próximas eleições será entendida como um modo de defraudar o novo regime legal. Assim, os partidos devem adoptar a interpretação mais rigorosa e apresentar candidatos que não tenham esgotado o limite de mandatos.

Procuradoria-Geral da República

Parecer n.º 31/2009: Aplicação e natureza jurídica dos prazos referidos no artigo 278.º do Código de Processo Penal
Ministério Público — Autonomia — Inquérito — Intervenção hierárquica — Contagem do prazo — Prazo peremptório
 1 — O Ministério Público goza de estatuto próprio e de autonomia em relação aos demais órgãos do poder central, regional e local, mas os seus magistrados são hierarquicamente subordinados, consistindo essa hierarquia na subordinação, nos termos da lei, dos de grau inferior aos de grau superior e na consequente obrigação de acatamento das diretrizes, ordens e instruções recebidas (n.os 1 e 3 do artigo 76.º do Estatuto do Ministério Público e n.os 2 e 4 do artigo 219.º da Constituição da República Portuguesa), e os despachos por eles proferidos são passíveis de reapreciação, estando sujeitos ao controlo do seu imediato superior hierárquico, em conformidade com o disposto nos artigos 278.º e 279.º do Código de Processo Penal;
2 — No prazo de 20 dias a contar da data em que já não puder ser requerida a abertura da instrução, o imediato superior hierárquico do magistrado do Ministério Público que tiver proferido o despacho de arquivamento do inquérito nos termos dos n.os 1 e 2 do artigo 277.º do Código de Processo Penal pode, por sua iniciativa ou a requerimento do assistente ou do denunciante com a faculdade de se constituir nessa qualidade, determinar que seja formulada a acusação ou que as investigações prossigam, devendo, neste caso, indicar as diligências que reputa necessárias e o prazo para a sua realização;
3 — O assistente e o denunciante com a faculdade de se constituir nessa qualidade só podem requerer a intervenção do imediato superior hierárquico, ao abrigo do n.º 1 do artigo 278.º do Código de Processo Penal, no prazo (de vinte dias) em que podiam ter requerido abertura da instrução nos termos da alínea b) do n.º 1 do artigo 287.º do mesmo código;
4 — O prazo referido na conclusão n.º 2 (e no n.º 1 do artigo 278.º) é sempre contado a partir do dia seguinte àquele em que tiver terminado o prazo em que podia ser requerida a abertura da instrução, independentemente de a intervenção hierárquica ser oficiosa ou ter sido requerida pelo assistente ou pelo denunciante com a faculdade de se constituir nessa qualidade;
5 — Este prazo é perentório, quer nos casos em que a intervenção hierárquica é oficiosa, quer quando é requerida por quem tenha legitimidade para o efeito, pelo que o imediato superior hierárquico não poderá decidir após o seu decurso;
6 — O assistente ou o denunciante com a faculdade de se constituir nessa qualidade não podem requerer cumulativa ou sucessivamente a abertura da instrução e a intervenção hierárquica, tendo que optar por uma delas.

Advogados de Lisboa dão consultas gratuitas durante um dia

Justiça

Por Mariana Oliveira [Público | 2012.11.08]


Se vive na Área Metropolitana de Lisboa e tem uma dúvida jurídica que há muito queria esclarecer, esta é a sua oportunidade. Mais de 100 advogados vão fazer hoje consultas gratuitas em 11 concelhos da Grande Lisboa. Para participar basta aparecer num dos gabinetes entre as 10h e as 17h.

Esta é a 6.ª edição do Dia da Consulta Jurídica Gratuita, organizada pelo Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados (OA). A iniciativa é aberta a todos os cidadãos, nacionais e estrangeiros, independentemente da sua situação económica.

"Num contexto de crise social e económica, que afecta milhares de portugueses e abala a sociedade, o Dia da Consulta Jurídica Gratuita traduz-se num apoio efectivo fundamental aos cidadãos, especialmente, aos mais carenciados, respondendo a questões de carácter jurídico", sublinha a organização.

Os gabinetes vão funcionar em Almada, Amadora, Benavente, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Seixal, Sesimbra, Sintra e Vila Franca de Xira. Alguns vão estar localizados em instalações da Ordem e outros junto de parceiros da iniciativa, como a Cruz Vermelha Portuguesa, a Abraço, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima ou a Amnistia Internacional. No Conselho Distrital de Lisboa da OA, na Rua dos Anjos, em Lisboa, vão funcionar sete gabinetes que vão estar divididos por ramos do direito. 

A iniciativa, que ocorre desde 2006 (com um interregno o ano passado), tem contabilizado uma média de mil consultas jurídicas por edição.

Sá Fernandes apresenta queixa contra o Estado

Tribunal europeu

Por Ana Henriques (Público | 2012-11-08)


O advogado Ricardo Sá Fernandes apresentou queixa contra o Estado português no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) por ter sido condenado pelo crime de gravação ilícita de uma conversa com o empresário Domingos Névoa no âmbito do caso Bragaparques. 

Tudo aconteceu em 2005, tendo o patrão da Bragaparques tido vários encontros com o irmão do vereador José Sá Fernandes para oferecer 200 mil euros ao autarca em troca do seu silêncio sobre a permuta do Parque Mayer, propriedade do grupo de Braga, pela Feira Popular, que pertencia à Câmara de Lisboa. O vereador havia declarado que o negócio era ilegal e tinha tentado desfazê-lo. O que Domingos Névoa ignorava era que o advogado andava a gravar as conversas que tinha com ele. Mas se a maioria das escutas foram autorizadas por um juiz, vindo assim a servir de prova para condenar Domingos Névoa por corrupção, o mesmo não sucedeu com a primeira conversa. O empresário apresentou então queixa em tribunal contra Ricardo Sá Fernandes por crime de gravação ilícita. 

Perante a primeira instância, que ilibou o advogado, compareceram como testemunhas do arguido figuras como Cândida Almeida, procuradora-geral adjunta, e a directora do Departamento de Investigação e Acção Penal, Maria José Morgado. Só que a Relação veio considerar, em Abril passado, que os juízes se haviam enganado na apreciação da prova e condenou o advogado. Foi desta decisão do Tribunal da Relação que o causídico recorreu, primeiro para o Supremo e depois para o Tribunal Constitucional. "O acórdão da Relação envergonha a justiça portuguesa", considera Ricardo Sá Fernandes. Numa decisão sumária datada do final do mês passado, um juiz do Tribunal Constitucional declarou que a causa não é passível de apreciação pelos constitucionalistas. 

"Ricardo Sá Fernandes está a jogar com o tempo, para o processo prescrever", acusa o advogado de Domingos Névoa, Artur Marques. Foi também a prescrição que fez com que o empresário de Braga já não tenha, afinal, de pagar os 200 mil euros de multa a que foi condenado por corrupção. Caso o TEDH lhe dê razão, Sá Fernandes diz que mandará reabrir o processo em que foi condenado por gravação ilícita.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ISMAI: lançamento do livro Profiling Criminal


8 de Novembro próximo pelas 18 horas no ISMAI (Auditório), numa iniciativa do Núcleo de Estudantes de Criminologia (NEC) e da Unidade de Investigação em Criminologia e Ciências do Comportamento (UICCC)

Fim dos procuradores distritais pode gerar "implosão" da hierarquia do MP

A nova procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, preside por inerência ao conselho Miguel Manso

Por Pedro Sales Dias

Parecer do Conselho Superior do Ministério Público diz que medida atenta contra autonomia do Ministério Público. Ministério da Justiça diz que procuradores-gerais distritais não serão eliminados

Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) teme que o projecto de lei de Organização do Sistema Judiciário, do Ministério da Justiça (MJ), possa afectar a autonomia e a independência do Ministério Público (MP). Em causa está a eliminação dos distritos judiciais e dos respectivos procuradores-gerais distritais, que não aparecem mencionados na proposta do Governo. Para o CSMP, a "eliminação do segundo nível de hierarquia" do Ministério Público representa a "introdução de mudanças destrutivas" e "a implosão da hierarquia, a crise da sua autonomia e a pulverização da sua organização".

Se a proposta for aprovada tal como está, o MP passará a ser um "corpo pulverizado, constituído por inúmeras partículas isoladas", que se revelará "incapaz de se conduzir como um todo e de se afirmar em conjunto no cumprimento da missão que lhe está confiada", diz o CSMP no parecer a que o PÚBLICO teve acesso. O ministério salienta, contudo, que não haverá eliminação das procuradorias distritais e sustenta que o CSMP - órgão a que preside por inerência o procurador-geral da República - fez uma "leitura que não corresponde à intenção do projecto".
 

Fonte do gabinete da ministra da Justiça avançou ao PÚBLICO que o parecer terá sido elaborado por um grupo de trabalho dentro do próprio CSMP que incluía os procuradores-gerais distritais de Lisboa e Coimbra e não foi votado por todos os conselheiros. O PÚBLICO apurou, contudo, que não é frequente que estes pareceres sejam aprovados, devido aos prazos reduzidos de resposta.
 

PGR em silêncio

O Estatuto do MP estabelece que "na sede de cada distrito judicial existe uma Procuradoria-Geral Distrital" dirigida por um procurador a quem compete, entre outras missões, "dirigir e coordenar a actividade do MP no distrito judicial, emitir ordens e instruções e representar o MP no Tribunal da Relação". A proposta do MJ, contudo, omite os procuradores-gerais distritais e cria, por outro lado, a figura do procurador-geral adjunto coordenador nos cinco tribunais da Relação existentes no país.
 

Alguns procuradores reconheceram ao PÚBLICO o receio de estes "coordenadores, de quem ainda não se conhece os futuros poderes, não terem a mesma autonomia e poder face à Procuradoria-Geral da República", que garantiu ontem que não se vai pronunciar publicamente sobre o assunto e que a sua posição "será transmitida às entidades competentes". Já José Baranita, da direcção do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, assume que os procuradores têm "algumas reservas quanto à proposta".
 

Sem "blindagem a pressões"

O CSMP salienta ainda no seu parecer que não estão explicadas as razões pelas quais se pretende esta alteração nos níveis de hierarquia e lembra que esta "é condição de autonomia e de afirmação da magistratura do MP e, nesse quadro, da Lei, do Estado de direito democrático e de cada um dos seus magistrados", constituindo "um factor de blindagem a pressões exteriores". Por isso, defendem que a "presente iniciativa legislativa seja abandonada" e que a sua discussão "seja retomada em conjunto com os "estatutos dos magistrados judiciais e do MP".
 

Os conselheiros criticam também o MJ por pretender instituir um modelo de
 governance do MP com uma magistratura não hierarquizada. "Na coerência do modelo proposto seria até dispensável a Procuradoria-Geral da República e o respectivo titular - o PGR -, subsistindo só, em coincidência com a magistratura judicial, o CSMP e o respectivo presidente."

Outro motivo de preocupação do CSMP refere-se às alterações na própria composição deste órgão, onde passarão a ter assento já não os quatro procuradores-gerais distritais mas os cinco procuradores-gerais adjuntos coordenadores que vão representar o Ministério Público nos tribunais da Relação. O CSMP diz que a alteração, a avançar, contribuirá para "desequilibrar" ainda mais "a representação no conselho, que já hoje conta com um número de magistrados muito superior ao de não magistrados". Para além disso, a alteração pode ser inconstitucional por ser feita através de uma lei ordinária, quando a lei fundamental prevê a composição daquele órgão.
Público | 2012.11.07

Relação do Porto esvaziada de competências, alerta juiz

O presidente do Tribunal da Relação do Porto, José Sousa Lameira, lamenta que a última versão da reforma do mapa judiciário esvazie as competências daquela instância e insiste que este modelo "inviabiliza por completo" a especialização nos tribunais superiores. O juiz desembargador mostra-se surpreendido com a redução da competência territorial da Relação do Porto, uma opção que, garante, nunca foi sequer discutida. E insiste que a mudança contribuirá para piorar a Justiça e aumentar as despesas.


Numa carta enviada ao gabinete da ministra da Justiça, José Sousa Lameira queixa-se que a competência da Relação do Porto ficará reduzida às comarcas do Porto, Porto Este e Aveiro, enquanto os processos dos distritos de Vila Real e Bragança passam para a Relação de Guimarães. "Não se vislumbra qualquer razão para esta mudança, que apenas acarreta inconvenientes e contribuirá, certamente, para uma pior Justiça", afirma. E realça que a Relação do Porto possui o único edifício do país com condições condignas para instalar um tribunal superior, que, com esta alteração, ficará subaproveitado. "[A mudança] não trará qualquer ganho de eficácia, nem se vislumbram quais as vantagens para as populações abrangidas, sendo certo que em termos económicos não se alcançarão quaisquer benefícios; antes pelo contrário, a despesa tenderá a aumentar", escreve o juiz.

O desembargador sustenta que se devia aproveitar esta reforma para discutir toda a organização judiciária, avaliando-se, por exemplo, se faz sentido manter a Relação de Guimarães e dois supremos (o de Justiça e o Administrativo). "Não faz sentido que a Norte do Douro existam duas relações", considera.

José Sousa Lameira defende que a dimensão dos tribunais da relação, com excepção do de Lisboa, tornará "impossível criar secções em matéria de família e menores, de comércio, de propriedade intelectual e de concorrência, regulação e supervisão", como pretende o Governo. "Uma secção tem que ter um número mínimo de magistrados que permita a discussão de ideias e a sedimentação da jurisprudência", sublinha o juiz. "Não faz sentido uma secção com três ou quatro juízes em que a discussão é feita em círculo fechado", remata.
 

Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério da Justiça adianta que só anteontem recebeu o parecer do presidente da Relação do Porto, não tendo ainda analisado o documento.
Mariana Oliveira
Público | 2012.11.07

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Jurista Laborinho Lúcio alerta para redução da qualidade da Justiça

06 de Novembro de 2012 | Por Lusa
O jurista Laborinho Lúcio, ministro da Justiça nos governos cavaquistas, alertou esta terça-feira para a redução da "capacidade e da qualidade de intervenção" do sistema judiciário com os cortes constantes na proposta do Orçamento do Estado para 2013.
Laborinho Lúcio alerta para redução da qualidade da Justiça"As grandes questões da Justiça não podem ser postas em causa por questões de natureza conjuntural", referiu Laborinho Lúcio à agência Lusa, após o lançamento do seu mais recente livro, intitulado 'Julgamento - Uma Narrativa Crítica da Justiça', apresentado pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio.
O ministro da Justiça nos XI e XII Governos Constitucionais, de 1987 a 1995, salientou que o corte previsto de 500 milhões de euros no próximo ano nos ministérios da Justiça, Defesa e Administração Interna "obriga à definição de programas" e notou que "existem limites".
"A questão está em saber quais são as alternativas", disse o jurista, que recupera no seu livro 40 anos de memórias e reflexões na sua carreira como magistrado e também como governante.
Laborinho Lúcio revelou preocupação pelo aumento do crime organizado em Portugal nos últimos anos e sublinhou que confia que "os limites a respeitar necessariamente para garantir os objectivos fundamentais que se procuram na administração da Justiça sejam garantidos e salvaguardados" com a redução dos recursos financeiros.
"Evidentemente que tudo que seja um corte numa área de intervenção aprofundada e com necessidade de algum investimento obriga à definição de programas de curto e de curtíssimo prazo de conjuntura, mas o importante é que esses programas não sejam desligados de uma visão estratégica global para serem coerentes com essa visão estratégica. Algumas dificuldades podem atrasar um pouco aquilo que seria a planificação e e depois a execução", afirmou.
Defendendo que a Justiça "precisa de um debate aprofundado", Laborinho Lúcio, que também advogou a necessidade de se proceder uma revisão constitucional, fez referência ao combate ao crime económico e declarou que, "tanto nessa área como nas restantes, a resposta terá necessariamente de ser a mesma".
"Evidentemente que quanto maior forem as condições, maior é a capacidade de intervenção. Havendo menos condições, é necessário adequar a possibilidade de intervenção nessas condições, sem nunca pôr em causa os limites exigíveis para garantir a Justiça e a segurança", reforçou.
Jorge Sampaio, que recusou abordar política nacional após a apresentação do livro de Laborinho Lúcio, referiu, na apresentação, que "a governação não tem olhado para a Justiça nos últimos 30 anos" e manifestou preocupação pelo facto de "o economicismo" estar "a chegar à Justiça".
Declarando que "o ministro [da Justiça] é agora um político", o antigo Presidente da República assinalou que "discutir hoje a Justiça é, simultaneamente, discutir a política".
Na apresentação do livro 'Julgamento - Uma Narrativa Crítica da Justiça"'estiveram presentes personalidades ligadas à política, à Justiça e à cultura, como Ramalho Eanes, Mota Amaral, Fernando Nogueira, Joana Marques Vidal, Cunha Rodrigues, Souto Moura, Luís Vaz Neves, Vasco Graça Moura, Rui Rangel, Lídia Jorge e António pedro Vasconcelos, entre outros.

Conselho Superior da Magistratura

Deliberação (extrato) n.º 1569/2012Regulamento das Férias e Turnos Judiciais

Dados da Saúde e da Justiça podem ir para privados

ESTUDO A Comissão de Proteção de Dados alerta para o facto de o estudo sobre a guarda por empresa privada dos arquivos do Estado incluir a Saúde e a Justiça. PS e PCP chamam Miguel Relvas.

'Privatização' de dados leva Relvas ao Parlamento
Polémica. A Comissão de Proteção de Dados diz que estão em causa não só os documentos classificados mas toda a informação dos cidadãos, da saúde às questões de justiça ou às finanças

VALENTINA MARCELINO

Os maiores partidos da oposição, PS e PCP, pediram uma audição, com carácter de urgência, ao ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, sobre a estratégia do Governo que defende a centralização das bases de dados de toda a administração pública (AP) numa empresa privada. Socialistas e comunistas consideram "muito grave" e "preocupante" que o Governo admita essa possibilidade e exigem que a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) acompanhe o processo.

A CNPD olhou "com apreensão" a notícia do DN e confirma não ter sido consultada. Fonte oficial assinala "que não estão em causa apenas as matérias classificadas, mas todo um vastíssimo conjunto de informação universal de todos os cidadãos do País, desde as bases de dados das polícias, da saúde, das finanças, do registo civil. Pôr essa informação nas mãos de terceiros é extremamente preocupante!". A CNPD adverte ainda para os riscos da cloud com base em estudos internacionais (ver caixa em baixo).

Em causa está um plano que o Governo tem em curso para racionalizar as despesas com as tecnologias de informação e comunicações (TIC) do Estado, poupando cerca de 500 milhões de euros. Foi nomeado para o efeito um Grupo de Projeto para as TIC (ver constituição ao lado), na tutela de Miguel Relvas. Conforme o DN noticiou ontem, o relatório que define a estratégia para os arquivos do Estado (ao lado) não exclui nenhum ministério ou entidade pública, admitindo também a migração para uma estrutura tecnológica privada - a "computação em nuvem", ou cloud computing - de documentos classificados, como os que estão em segredo de Estado.

Para a deputada independente, eleita pelo PS, Isabel Moreira - que teve a iniciativa de chamar Relvas ao Parlamento -, "a ser verdade, estamos perante uma privatização da soberania nacional e a colocar em perigo um amplo conjunto de princípios constitucionais e comunitários, o que seria de uma extrema gravidade". Sublinha que o PS "não coloca qualquer reserva à evolução do sistema informático", mas, disse ao DN, "o que é absolutamente dilemático é que essa infraestrutura seja concebida e entregue a privados, que passariam a prestar um serviço ao Estado, quando esse mesmo serviço deve ser do Estado". A sua colega de bancada, Isabel Oneto, quer também saber "quem definiu os parâmetros do estudo que chega a uma conclusão destas" questionando "como sequer passou pela cabeça de alguém com responsabilidades entregar a privados bases de dados da AP?". A deputada critica o facto de a CNPD não ter sido consultada, sublinhando que esta entidade "tem de acompanhar todo o processo das bases de dados do Estado ao milímetro".

O PCP indica preocupações semelhantes para exigir explicações a Miguel Relvas. "Como é óbvio, existem no âmbito de diversos ministérios bases de dados de enorme sensibilidade e secretismo. Basta pensar nas bases de dados do SIRP (que se encontram, por força da lei, ao abrigo do segredo de Estado), nas bases de dados relativas à investigação criminal, ou nas bases de dados que contenham dados relativos à saúde de pessoas individualmente referenciadas", diz no requerimento entregue ontem. António Filipe assinala ainda que "logo há partida há um problema de inconstitucionalidade", uma vez que "não há garantia que a interconexão dos dados esteja devidamente protegida".

VEM NO ESTUDO ARRANQUE

> Segundo o documento, "a Presidência do Conselho de Ministros (PCM) está a proceder a um levantamento faseado dos centros de dados, sistemas e função informática na administração pública a todos os organismos de administração direta e indireta do Estado e do sector empresarial (Projeto EAGLE).

PRIMEIRA FASE

> "Numa primeira fase", está crito, "já se encontra realizado ao nível da PCM, do Ministério da Administração Interna, do Ministério da Educação e Ciência e do Ministério da Saúde.

CLASSIFICAÇÃO

> Numa matriz em que são avaliados os três cenários em estudo, a opção pela cloud é considerada "admissível" e "preferencial" para guardar documentos classificados.

CALENDÁRIO

> O cronograma apresentado indica o prazo de "36 meses", a contar do segundo trimestre de 2013, para estar concluída a migração para a "nuvem" das bases de dados. Como "medida transitória" indica que "entre outubro de 2012 e junho de 2013" não podem "ser construídos novos centros de dados" e os contratos devem ter a "duração máxima de 8 meses a 1 ano".

QUEM É QUEM EQUIPA

> O Grupo de Projeto para as Tecnologias da Informação e Comunicações (GPTIC) tem a seguinte constituição:

COMITÉ EXECUTIVO

> Neste grupo operacional está Marta Sousa, representante do primeiro-ministro, Sílvia Gonçalves, do gabinete do ministro dos Assuntos Parlamentares, e Madalena Travisco, do Ministério das Finanças.

COMITÉ TÉCNICO

> Este grupo é constituído por Paulo Neves, da Agência para a Modernização Administrativa, Gonçalo Caseiro, da Entidade de Serviços Partilhados, e Manuel Honorato, do Centro de Gestão da Rede Informática do Governo.

CONSELHO CONSULTIVO

> Além do catedrático José Tribolet, este conselho tem também os professores Maria Manuel Leitão, João Carvalho, e dois académicos de universidades suíças.
Diário de Notícias 6 de Novembro de 2012

Ex-ministro alerta para cortes na Justiça

Orçamento
O jurista Laborinho Lúcio, ministro da Justiça em governos cavaquistas, alertou ontem para a redução da “capacidade e da qualidade de intervenção” do sistema judiciário com os cortes constantes na proposta do Orçamento do Estado para 2013. “As grandes questões da Justiça não podem ser postas em causa por questões de natureza conjuntural”, referiu após o lançamento do seu mais recente livro, Julgamento – Uma Narrativa Crítica da Justiça, apresentado pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio.
O ministro da Justiça nos XI e XII Governos Constitucionais, de 1987a 1995, salientou que o corte previsto de 500 milhões de euros nos ministérios da Justiça, da Defesa e da Administração Interna “obriga à definição de programas”, e notou que “existem limites”. “A questão está em saber quais são as alternativas”, disse.
Diário Notícias 6 Novembro 2012

LABORINHO LÚCIO LANÇA LIVRO EM LISBOA

Testemunho.
O ex-ministro da Justiça, Laborinho Lúcio, lançou ontem, em Lisboa, o livro ‘Julgamento – Uma Narrativa Crítica da Justiça’. A apresentação da obra esteve a cargo de Jorge Sampaio, que a rotulou de “testemunho de uma vida”.
Correio Manhã 6 Novembro 2012

A justiça democrática em risco?

Ante as expressões mais agudas da “crise”, não tardará a acicatar-se, ainda mais furioso, o circo político e jurídico-mediático já instalado
António Cluny*
1. A forma como muitos portugueses, de condição diversa e de cultura e ideias políticas distintas, vão encarar os próximos tempos é, naturalmente, uma incógnita.
As convulsões e as contradições sociais e políticas são inevitáveis, e tenderão a agudizar-se se não se configurarem, para a “crise” que governa os seus destinos, alternativas imediatas e adequadas a patamares e valores civilizacionais que os tempos de hoje exigem e que a nossa Constituição consagra. 2.0 fogo cerrado sobre as magistraturas voltou entretanto a recrudescer: alimenta-se de erros próprios, mas mais ainda do temor de que estas possam afinal vir a desempenhar o imprescindível papel de garante dos direitos constitucionais.
Apesar dos “caudilhismos” de recorte terceiro-mundista que vingaram entretanto nas lideranças de algumas das magistraturas – e sobrevivem mais boçais ainda noutras profissões judiciárias -, a verdade é que os magistrados portugueses têm conseguido, em geral, preservar o essencial do seu mister: a independência.
O regresso da magistratura a tempos de normalidade, de discrição, de estudo, de conhecimento e de trabalho efectivo e isento parece de nada servir afinal para circunscrever esse fogo.
Ante as expressões mais agudas da “crise”, não tardará a acicatar-se, ainda mais furioso, o circo político e jurídico-mediático já instalado. Este tem servido, e dilata oportunamente, sempre que é necessário deslegitimar qualquer intervenção da justiça que se não limite a visar e conter os “zés-ninguéns” desta terra.
3. Com o mesmo objectivo, vai intensificar-se – inapelavelmente – a campanha contra o associativismo judiciário. Quem o faz sabe, mas quer fazer esquecer, que o movimento associativo judiciário – com carácter sindical ou não – está enraizado em toda a Europa e é reconhecido e apoiado pelas instituições europeias, com as quais colabora regularmente.
É, não por acaso, nos países de democracias mais antigas que esse movimento assume, aliás, um forte carácter sindical: por exemplo na França, na Alemanha e na Bélgica.
Com mais ou menos hesitações, ingenuidades e inclusive alguns desacertos, mas acima de tudo quase sempre, com esclarecido sentido de responsabilidade, o movimento associativo judiciário português tem desempenhado um papel relevante na detecção das insuficiências do sistema de justiça e no alerta da cidadania para as tentativas da sua manipulação.
Alguns dos seus erros, designadamente os do uso -já ultrapassado, de resto – de discursos que lhe eram tradicionalmente alheios, resultaram, ainda assim, da necessidade de dar uma resposta cortante aos ataques que, de dentro e de fora, foram estrategicamente lançados para destruir a isenção e a capacidade de intervenção da justiça: “partir-lhe a espinha”.
Por sempre ter denunciado as ingerências de todo o tipo e quadrantes, o associativismo judiciário é pois odiado por todos os serventuários dos interesses que conduziram à “crise” e dela vivem.
4. A força e a sustentação do movimento associativo judicial resultaram sempre, todavia, da sua capacidade de se rever nos problemas da cidadania e, com as naturais especificidades estatutárias, de se saber associar à expressão do sofrimento dos cidadãos.
Hoje, porventura mais do que outras missões, caberá às associações de magistrados alertar os seus associados para a necessidade de compreender a legitimidade democrática das iniciativas cidadãs, do mesmo modo que, com razão, querem ver compreendidas e respeitadas as próprias.
*Jurista e presidente da MEDEL Escreve à terça-feira
i 6 Novembro 2012