sábado, 22 de junho de 2013

A Universidade de Coimbra é símbolo de uma “cultura que teve impacto na humanidade”

ANDRÉ JEGUNDO, MÁRIO LOPES

Após quinze anos de um trajecto longo e complicado, a candidatura da Universidade de Coimbra foi hoje reconhecida como Património Mundial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), decisão tomada na 37ª sessão do Comité do Património Mundial, que está a acontecer em Phom Penh, no Cambodja.

Apesar dos últimos pareceres feitos pelo ICOMOS – órgão consultivo da Unesco – que aconselhavam a não inscrição, já esta sessão, da Universidade de Coimbra (UC) na lista do património mundial, os vários representantes dos países do Comité do Património Mundial foram unânimes no reconhecimento da valor da candidatura.

Para além dos critérios no qual a candidatura vinha fundamentada, e que tinham que ver sobretudo com o valor patrimonial do conjunto de edifícios que integram a área da candidatura, foi acrescentando um terceiro critério que reconhece a UC como símbolo de uma “cultura que teve impacto na humanidade”, diz o reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva.

O que foi distinguido não é apenas um conjunto de edifícios antigos e bonitos. A universidade foi reconhecida como o ícone de uma cultura e de uma língua que é portuguesa

João Gabriel Silva, reitor da UC
“Para mim, como reitor, isso ainda torna este momento mais emocionante e especial. O que foi distinguido hoje pela Unesco não é apenas um conjunto de edifícios antigos e bonitos. A Universidade de Coimbra foi reconhecida como o ícone de uma cultura e de uma língua que é portuguesa, que ajudaram a modelar o mundo como o conhecemos. É uma coisa de uma dimensão extraordinária. Como reitor até me sinto pequenino perante uma coisa desta dimensão”, afirma.

Clara Almeida Santos, vice-reitora para a Cultura e Comunicação, que está no Cambodja a representar a universidade, diz ter ficado “comovida” com a forma como os delegados dos países membros do Comité do Património Mundial, subscreveram a “inscrição imediata da Universidade de Coimbra na lista de Património Mundial”, apesar do parecer do ICOMOS.

“E com intervenções que nos devem deixar extremamente orgulhosos, porque falaram na importância da universidade na divulgação da ciência e da língua portuguesa no mundo. O embaixador indiano referiu a importância da língua portuguesa como veículo de cultura e com uma influência expressiva na Índia. O embaixador tailandês agradeceu a Portugal ter levado as malaguetas para a Tailândia”, descreve.

“Ficámos muito orgulhosos de ouvir 21 membros de países diferentes, de todas as partes do mundo, a defenderem a inscrição imediata da universidade na lista do Património Mundial porque reconheceram nela um valor excepcional”, acrescenta o presidente da autarquia de Coimbra, João Paulo Barbosa de Melo, que está também no Cambodja.

Para o autarca, a decisão da Unesco representa uma “enorme responsabilidade” para a cidade, para a universidade e para o país de “fazer mais e melhor por este património que foi hoje distinguido”. “Hoje chega ao fim um trabalho de anos. Foi um trajecto difícil. Mas amanhã começa um novo desafio: começa o trabalho da universidade, da cidade e das autoridades nacionais de se empenharem ainda mais na valorização e preservação deste património e de cuidá-lo para futuras gerações. É uma grande responsabilidade”, afirma, convidando a cidade a “festejar” a decisão da UNESCO.

Para amanhã está marcada a inciativa “Coimbra em Festa”, que vai decorrer a partir das 16h na Praça do Comércio, na Baixa de Coimbra, e que vai contar com a actuação de vários grupos musicais.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros, numa reacção à Lusa, considerou que a classificação beneficiará “a economia, o turismo, o conhecimento e o cosmopolitismo” da cidade, mas que também é “muito prestigiante” para Portugal.

“É um grande dia para Portugal e para Coimbra. A meritória candidatura a património mundial passou com brilho e beneficiará” a cidade em várias áreas, afirmou Paulo Portas numa declaração escrita. O ministro agradece “o trabalho impecável” não apenas do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), da Comissão Nacional da UNESCO e da embaixada, como também “o trabalho incessante dos promotores da ideia, desde a autarquia até à universidade".

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros acrescentou que esta distinção é um “reconhecimento internacional, que agora é muito justamente atribuído a Coimbra”. Para o ministério, constitui um “motivo de orgulho e regozijo” para a cidade e para o país e “dá conta da confiança da UNESCO na capacidade de o Estado para preservar o valor dos seus bens patrimoniais”.

Já o presidente da Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal, Pedro Machado, disse que a classificação “é uma grande porta que se abre” para o turismo da cidade. “É uma excepcional notícia Coimbra ter atingido este galardão”, declarou Pedro Machado à agência Lusa, realçando que a decisão do Comité da UNESCO “é o reconhecimento de Coimbra pela sua história, pelo seu património” e pelo papel da sua universidade, fundada em 1290, “na formação de tantas gerações espalhadas pelo mundo”.

Esta classificação, segundo Pedro Machado “pode posicionar Coimbra, mais e melhor, naquilo que é o desafio dos mercados em matéria de competitividade e atractividade” na área do turismo.

Walter Rossa, catedrático de Arquitectura da Universidade de Coimbra, não foi apanhado de surpresa pelo anúncio da classificação. “Acompanhei de perto o trabalho e, como tal, estava absolutamente convencido de que ia ser classificada”. Para Rossa, a universidade “tem um valor absolutamente excepcional na história mundial”. Como um dos investigadores co-responsáveis, na Fundação Gulbenkian, pela criação do portal www.hpip.org, que inventaria o património português espalhado pelo mundo, destaca que “o império português foi um dos primeiros dois à escala mundial, mas enquanto os espanhóis tinham várias universidades, o português só tinha Coimbra. Do ponto de vista da formação de quadros para todo o império, é imbatível”, acentua. “Não há outra instituição universitária que tenha tido essa relevância”.

Daí considerar que, mais que o património edificado – “e eu sou arquitecto, portanto estou à vontade para o dizer” –, o que é “verdadeiramente importante” é o “património imaterial, o valor cultural simbólico que a Universidade de Coimbra tem a nível universal”.

Para Coimbra, hoje, a classificação pela UNESCO significará, na visão de Walter Rossa, “uma responsabilização das entidades” perante a cidade, sua história e património, mas também dos cidadãos. “Estas distinções têm a enorme vantagem de os envolver nos processos de decisão e no dia-a-dia de gestão do património”. Tal pode ser muito importante numa cidade que precisa de “um grande impulso de regeneração urbana”.


15 patrimónios mundiais
Apesar de ser uma aspiração antiga, o projecto da candidatura começou a ganhar forma em 1999 a partir da tese de doutoramento que António Pimentel, actual director do Museu Nacional de Arte Antiga e o primeiro director científico da candidatura, realizou sobre o Paço das Escolas.

Com o tempo, a candidatura alargou também o seu âmbito: do Paço das Escolas passou a incluir toda a Alta universitária e Rua da Sofia, num conjunto de mais de 30 edifícios, e ao património material juntou o imaterial, como a produção cultural e científica, as tradições académicas, o papel desempenhado ao serviço da língua portuguesa.

A Universidade de Coimbra fica agora no restrito lote em Portugal do património mundial da UNESCO, que sobe assim até às 15 classificações. Junta-se ao centros históricos de Angra do Heroísmo (Açores), Porto, Évora e Guimarães, aos mosteiros da Batalha e Alcobaça, ao Convento de Cristo (Tomar), ao Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, à paisagem cultural de Sintra, às gravuras rupestres de Foz Côa, à região do Alto Douro Vinhateiro, à paisagem da cultura da vinha da Ilha do Pico (Açores), às fortificações de Elvas e à laurissilva da Madeira.

Na terça-feira, a UNESCO classificou o diário da primeira viagem comandada por Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para a Índia (1497-99), atribuído a Álvaro Velho, como Memória do Mundo.
Público, 22 de Junho de 2013

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